quarta-feira, 11 de outubro de 2017

A que vens, tardio Amor

A que vens, tardio Amor
Quando a Lua te enobrece?
Vens cumprir teu vil labor
De matar quem te não esquece?
Se por ti morri absorto
Por que vens matar um morto?

Mas se a minha morte vã
Não chegar p«ra teus amores
Vem no ventre da manhã
Vem cobrar meus ais em dores
Que, ai de mim! a vida tiro
Se te roubar um suspiro.



Traz então o cru punhal
Que carregas no olhar teu
Abre o peito que, afinal,
Nunca foi não mais que teu
E grava nele, corte a corte,
O teu nome, que me é morte.


segunda-feira, 9 de outubro de 2017

A Magnólia

Uma avezinha cantante
Rasgando os céus, certo dia,
Perdeu-se de amor, errante,
P’la flor que um ‘spelho reflectia…

Dormia num piano velho
A magnólia adormecida
Mas só no reflexo do espelho
A ave via a flor ‘scondida…

Certa noite, num lamento,
A voz já desesperada,
Roubou o ‘spelho cinzento
E esp’rando ver a flor amada

Viu o seu rosto… e a flor
De tule e sombra rosada
Em gotas de orvalho e amor
Brotando dos olhos

                                                                                                       - mais nada…

sábado, 7 de outubro de 2017

A Estátua



Foi ontem que a vi da janela
Só, no meio do jardim
Rodeada p’lo belo jasmim
E ornada p’la rosa bela
Mas qual uma triste ilusão
De rocha cinzenta era ela
Com flores de pedra na mão
            - Tu não.






No meio do jardim florido
Olho-lhe a fronte parada
E penso-lhe a fortuna errada
De ver tal encanto perdido
Em dama de pedra tornada;
E tem olhos fixos em vão
No céu do qual não verá nada
            - Tu não.




Nem um sorriso me devolve
Quando eu a olho de frente
A falta de alma permanente
No seu olhar duro se envolve
Tem semblante descontente
Não conhece dor e emoção
E a pele cinza nada sente
            - Tu não.





Aceno-lhe e rio, mas nada
Ao menos a ti posso rir:
Podes devolver um sorrir
Entre a tua boca rosada
E se tem boca é em vão
Pois tem-na p’ra sempre fechada
P’ra que é mulher, pois então?
            - Tu não.



Ai, pobre estátua cinzenta
Não se sabe pedra ou mulher
E tu, carne e osso, é mister
Que sejas quem amor ostenta
Mas eis-me aqui sempre em tormenta
Sem que tu me olhes sequer
P’lo que, ouve, aprende a lição
Que a mulher de pedra apresenta:
Apesar de pedra cinzenta
No peito tem um coração

            - Tu não.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

O Bom Pastor

XLIV

Levanta-se c'o voar das andorinhas
De luto pelos céus amargurado
E vai de vale em vale e verde prado
Trazendo no seu peito as ovelhinhas...

Murmura às brancas fontes que, sozinhas,
Correndo pelo monte abençoado
Aquele que 'scolheu para seu fado
O de fazer de si o pão, as vinhas...

E a tarde vai passando e o bom pastor
'Screvendo no cajado o vale em flor
Abraça o verde monte que anoitece;

E o anho que a seus pés lança um balido
Suspira à branca Lua e, embevecido,
Entrega-se ao seu amo e adormece...


terça-feira, 3 de outubro de 2017

A Bela Moleira

XLIII

Ias, donairosa, ao romper do dia
As aves nos teus olhos de andorinha
Leves, leves, da aurora que avizinha
Pretos, pretos, das penas que trazia...

Trazias no regaço a canção fria
E ululante voz da ribeirinha
E do vergel colheste, rosadinha
A boca de maçã que lá crescia...

E bela moleirinha, que em verdade
Quiseste que eu encontrasse a liberdade
Fazendo do teu seio o meu caixão;

Enterra-me em amor no pó antigo
Mas deixa no teu peito a mó, o trigo
Rodando eternamente o coração!...

domingo, 1 de outubro de 2017

XLII

Pedira a vã donzela certo dia
Ao velho cavaleiro seu amado
"Trouxeras-me o bem rico mais cuidado
E minha mão d'alvura eu te daria!..."

'Squecendo todo o dano que faria
Ao seu peito de guerras destroçado
O cavaleiro arranca com um brado
O coração d'ouro co'a espada fria...

Mas vendo a fulva jóia desbotada
A jovem, atirando a pedra ao nada,
Disse "Quebrada está! Que serventia?"

A jóia se esvaiu em lume brando
Rompeu-se em sete sóis e, suspirando
'Spraiou-se com a luz do novo dia!...


terça-feira, 26 de setembro de 2017


XLI

Na alta catedral que em breu se erguia
Nas calhas da Razão cumprindo o fado
Entrei, p'ra me tornar o esposo amado
Da noiva que esperava, escura e fria.

A porta do sepulcro em flor se abria
Dois anjos aguardavam, lado a lado
E em me trazendo o cálix destinado
Ergui-o à minha amada, que dizia:

"Eis enfim, doce amado, p'ra preceito
As pedras que te servem de mortalha
Quando não pode mais o pobre peito!"

Que pode o coração tão contrafeito
Se não tem alma humana amor que valha
A Dor p'ra sua esposa, o breu p'ra leito?