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domingo, 21 de janeiro de 2018

sábado, 23 de setembro de 2017


XL

Quando, finado o Estio das almas tristes
O meu coração seco e macerado
Cair com um suspiro a teu lado
Sabendo nunca mais se nele existes;

Quando nas tardes calmas que persistes
Junto ao rio que corre anunciado
Em desfolhar os sonhos do passado
Sem cuidar por teu o que neles vistes...

Quando o violino triste e dolente
Cantar à madrugada, descontente
E abrir o peito vão ao céu cinzento;

Entende que, dormindo, a terra espera
Abrir-se novamente à Primavera
No seio pobre e só do esquecimento...

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Memórias



É uma tarde de Inverno
Redundantemente uma tarde de mim
E, abrigado debaixo dos pinheiros nevados,
Descalço, que o frio nunca me incomodou,
As mãos já insensíveis ao calor do corpo
E a alma mais insensível ao do coração
Vou contando flocos de neve
Contando lentos flocos de neve
Que se afogam no mar de gelo…

Ao longe vejo a casa, aquela que em teoria é minha,
Deixou de o ser quando a minha avó partiu
O meu grave pai deve estar junto à lareira
A minha adorada irmã deve estar a chorar
E a minha mãe, consternada, chama-me;
Só eu é que estou debaixo dos pinheiros nevados
A cabeça dormente, o coração quase parado
E desejo cá ficar eternamente…





Mas eu estou em casa! A neve é a minha casa
O Inverno mais o frio que ele traz
A minha mãe adora o Verão e resmunga no Inverno
É dizer, resmunga comigo então também,
Porque eu não sei ser mais senão Inverno;
Calor nenhum do Verão me dará o conforto
Que o ópio que uma noite invernosa me traz
E é nestas alturas que eu me enterro na neve
Que eu me enterro até ao pescoço na neve
Esperando ser uma estátua de gelo
E ser finalmente uma vez mais parecido comigo…









Ouço ao longe, ergo a cabeça
Espreguiço um pouco a mente vazia
A mente cheia de branco e de nada
Branco de neve e nada como eu
E exclamo para mim que é desta que não volto
Que vou ficar aqui no meu reino de gelo
E dele fazer as minhas maravilhas;
A minha pele branca já é quase cinzenta
Cinzenta do frio e cinzenta dos pinheiros
Que sussurram por entre a folhagem…





Não vou!
Já disse que não vou!
Deixai-me ficar por entre os pinheiros cinzentos
E que eu me confunda com o cinzento dos pinheiros
Se às pessoas sou vil e mesquinho
Se lhes fiz conhecer a amargura de carácter (dizem elas)
Se lhes dou mais mal que bem
Deixai-me ficar entre os pinheiros cinzentos
Entre os nobres e graves pinheiros cinzentos
Pois se nunca a uma árvore ou a uma planta fiz o mal
Não se incomodarão se viver entre eles…

Deixai-me gelar!
Deixai-me fundir com a neve branca e ser uma estátua de gelo
Sempre sonhei poder ser uma estátua gelada
E adormecer por entre a neve e os pinheiros
E na chegada do quente Estio
Daria de beber às jovens flores.
Sou o Inverno e ninguém gosta do Inverno
E por isso desejo ser uma estátua de gelo
E sonho o dia em que alguém mais afoito
Pudesse chegar e dizer “este menino tem frio”
E em me abraçando me fizesse derreter e morrer a mais bela das mortes…


Oferecem-me doces…
Ah, os doces! A primeira moeda que conheci!
Que nostalgia, que lonjura por esses doces
Aqueles que me faziam esquecer que me troquei por doces
E que eram a resposta para todas as quezílias;
Manda-se e paga-se com doces
E assim se vão ensinando as gerações…
Mas olha, guarda os teus doces
Que eu preferia mil vezes mais um abraço que derretesse o gelo frio
Que a ainda mais fria política dos doces…

(Esta parte é devaneio, contudo;
Nunca lhes dei tal resposta nem ela o soube
E mesmo sabendo talvez não fizesse diferença nenhuma
Pois o mundo - o nosso - não pode funcionar sem moeda:
Mentir-me-ia se me conquistasse com um abraço e não doces…

… Ah… os doces…
Não foi por tantos doces que tive que me tornei menos amargo
Talvez não seja assim que se adoçam pessoas
Não sou uma peça de culinária…)


 


Mas sabem, ainda hoje me oferecem doces
Talvez não os mesmos, mas de outras maneiras
Ocultos num beijo, numa frase, num sorriso
Que na verdade mais não são que doces
Mentirosos doces e moedas para câmbio
E eu, que para além de caro ainda sou pobre
E não tenho moedas de natureza nenhuma
Por não saber mentir também nada compro
E ando por aí, de mãos nos bolsos, a fazer contas
Quanto vali hoje, de quanto perdi em não me ter vendido
De quanto será o valor no dia em que me vender
E até de quantas vezes me venderei
Que aguentar comigo, sei-o bem, não é tarefa de uma vida
E com isto no meu peito vai nevando
E sentado vou sonhado debaixo dos pinheiros cinzentos…





(Nos meus sonhos há uma grande casa branca
Uma solitária mas feliz casa branca
E, na entrada, de braços estendidos em flor,
Uma figura me convida e sorri
E eu, criança perdida nos pinheiros cinzentos,
Ergo-me e choro flocos de neve
E, por um momento, aceito os doces
Aceito o sorriso, aceito o abraço
E suspiro: até o Inverno gosta de se sentar à lareira de vez em quando
E talvez por isso seja tão frio, para que se lhe acendam várias lareiras…)

No final do seu tempo o Inverno diz:

- Vou morrer. Acordem-me quando chegar a Primavera…


sexta-feira, 19 de maio de 2017

Era uma Noite


Era uma noite
Era uma noite de fim de Verão
De fim de estação e começo da nova
Aquela estação em que os dias parecem ter mais que vinte e quatro horas
Aquela estação em que não envelhecemos
Aquela estação que parece durar para sempre
E era uma noite de fim de Verão
E em que os sonhos maiores ou mais ingénuos
Pareciam caber na palma da mão...

Era uma noite
Era uma noite de fim de Verão
Os jardins cobriam-se das últimas rosas
E a nossa juventude crescia como nascem as flores`
Nascia como nascem as ondas que embalam os navios
E eu era jovem e tu eras jovem
Perdidos numa noite de fim de Verão
E em que as rosas rubras dos quintais
Pareciam nascer no nosso coração...

Os teus olhos
Os teus olhos que eram duas contas verdes
Eram botões jovens de camélias por florir
Camélias brancas como como eram brancas as nuvens
Que eram céu dos nossos devaneios
Em que os meus olhos eram o espelho dos teus
Os teus olhos, duas camélias por florir
Dois botões, que eram duas contas verdes
Eram o advento da Primavera por vir...

Sorris para mim
É com os teus olhos que sorris para mim
Naquela linguagem muda que só os pobres percebem
Os pobres de palavras que não conhecem as suficientes para se exprimirem
Ou talvez sejam as palavras que são pobres para a riqueza do coração
E sussurras-me ao ouvido melodias que toco ao piano
Não são necessárias palavras, são os dedos que falam
E falam daquilo que pobremente os olhos dizem
Falam de amor e de sonhos em sons que embalam...

Abro-te os braços
Abro-te os braços e escondo o meu rosto no teu peito
Que importa todo o tamanho do mundo
Se podemos criar um mundo ainda maior?
Abres as tuas asas, as tuas grandes asas negras
Pois negro é também o preço deste mundo
São quentes as tuas asas dentro do meu peito
Uma luz ainda assim branca acende e aquece
Pois de o amor ser amor nunca senti de outro jeito...

Mas fomos ingénuos
Mas fomos ingénuos como os jovens o são
Crendo que o Verão poderia durar para sempre
Crendo que todas as ondas embalam os navios
Crendo que os nossos corações eram duas rosas rubras
E crendo que as rosas viveriam para sempre
Mas fomos ingénuos como sempre soubemos ser
Quando o mesmo Verão que nos traz as flores
Com o mesmo calor as pode fazer arder.

Aqueles sonhos
Aqueles sonhos vãos esvaíram-se como fumo
E as nuvens brancas que eram o céu dos nossos devaneios
Trouxeram tempestades que revolveram os mares
Trouxeram tempestades que afundaram navios
E nós, dois tolos, duas criaturas desprovidas de juízo
Atirámo-nos ao mar pelos sonhos que se afogavam
E esquecemo-nos que se esvaíam como fumo
E ventos perdidos que nunca as mãos agarravam.

Olha-me e vê!
Olha-me e vê as minhas mãos cravejadas
As rosas que murchavam agarrei-as com fé
Agarrei-as tanto que foi a minha carne que ficou nos espinhos
E não os espinhos que ficaram na carne
Os cabelos brancos tenho-os na alma, não na cabeça
Da juventude que passou resta o meu rosto
E os meus olhos que foram o espelho de algo mais
Hoje são o espelho de um quarto vazio.

Encolho-me
Encolho-me e durmo, faz frio
Faz frio e passou o Inverno
Que afinal nunca o Verão duraria para sempre
A minha alma é um tapete de camélias maceradas
E as pétalas que recolhi dos teus olhos murchos
Enterrei-as dentro de rocha e terra dura
Na terra e pedra dura que restou dos jardins
Como a única lembrança do tempo das flores.

Os tempos passam; é Verão
E é também uma noite de Verão
Não é uma estação nova, é a mesma todos os anos
É o mesmo que há-de vir quando o meu rosto envelhecer
É o mesmo que trará as flores e que as queimará ele mesmo
E, numa sala perdida, oculta nas sombras
Levanto a tampa do piano que eu sou
A melodia é sempre a mesma, ano após ano
Que ecoa nas paredes frias do meu espírito
E hoje és o anjo negro que dança nos meus sonhos
As pessoas aplaudem, é bonita a música
Felizmente foi mais uma vez que as agradei
Eu levanto-me, agradeço e agarro o meu peito
Quando de sorrir o meu coração já não pode
E é ao ver pétalas perdidas nas teclas brancas do piano
De camélias escuras, sem perfume ou brilho
Que entendo que ainda são os teus olhos murchos que eu toco
Os teus olhos antes verdes como dois botões verdes
Que plantei num canto perdido do meu ser
E no meu coração a rosa rubra que ele foi
(Apercebe-se agora o meu espírito desfeito)
Só resta agora, após sonhar e perder,
Um espinho solitário que mo segura no peito... ...


sexta-feira, 21 de abril de 2017

A Rapariga de Metal


Numa casa à beira-mar
Numa praia prateada
Viveu um grande inventor
Com a sua esposa amada.

Eram felizes (como não?)
Amavam-se co'amor profundo
E sabiam vencer juntos
As maiores penas do mundo.

Contudo algo faltava
Não se sabia o que seria
Mas a esposa disse "Um filho
Nos trará mais alegria!"

"Uma menina!" concordaram
Esse desejo assim ficou
E nem um ano passara
E o dia feliz chegou.



O inventor, tão inquieto,
Bem esperava de olhos baços
Pela menina adorada
Que iria ter nos braços.

Mas a Sorte e o Destino
Algo tinham planeado
E se uma moça nascera
Outra cumpriu triste fado.

Eram duas, lho disseram
Gémeas, mas ninguém previra
E se uma nasceu saudável
Outra mais frágil morrera.

E o inventor derrotado
Olhou o céu com rosto langue:
Tudo pudera inventar
Menos p'ra salvar seu sangue!



Pensou então remediar
E por fim o coração
Lhe disse aquela que era
A possível solução

E alguns meses passados
Numa manhã de Primavera
Apresentou à sua esposa
A nova filha que fizera.

Passaria por humana
Em tudo à outra era igual
Mas em verdade era máquina
Apenas feita de metal.

E ainda assim algo faltava
Que se não pôde fazer
No seu peito não havia
Um coração a bater.



Os anos foram passando
A filha real crescia
Já à outra, o pobre pai
Só peças substituía

E perguntava a sua irmã
(Que decerto o saberia)
Como era ter então
Um coração que batia.

"É duro ter um coração
Com as suas dores e penas
Por tudo se sofre em vão
Das coisas grandes às pequenas.

Preferia não o ter
Se assim queres que to diga
Não ter amor como algemas
Nem a dor como amiga..."


A outra só acreditava
Não podia dizer que não
Mas 'inda assim, em seu íntimo,
Desejava um coração.

Ora um dia belo mancebo
Chegou à casa à beira-mar
Era andarilho e precisava
De casa p'ra descansar.

Era esperto, belo e tinha
Tantas histórias para contar!
E por ele a jovem moça
Logo se foi enamorar,

A de carne, pois claro
Essa é que podia amar
Algo que a irmã de lata
Nem sabia imaginar.

Trocaram mil juras d'amor
E mil mundos por explorar
E logo então se decidiu
Que iriam os dois casar.

Foi numa manhã de Inverno
O dia estava sereno
E a brisa vinda do mar
Dava-lhe um tom ameno.

Sentada junto a uma rocha
A noiva então esperava
Com a sua irmã de lata
Que sua mão segurava.

Nisto um homem esbaforido
Apareceu a correr:
O noivo não estava em casa
Acabara de desaparecer:

Descobrir em tarda hora
Que mais queria viajar
E uma jovem mulher
Só iria atrapalhar.

A pobre noiva estremeceu
Sentiu-se como a desmaiar
E agarrou-se ao coração
Que ameaçava parar;


Já o sabia, questão de tempo
P'ra quem tem tal condição
A de ter no peito fraco
Um malfadado coração!

Com o tempo que lhe restava
Disse à irmã de metal:
"Um desejo a pedir-te
Tenho agora no final

Abre este meu peito fraco
E tira-lhe o instrumento
Máquina que eu nunca quis
Origem do meu tormento

Não te acanhes, tu o queres
Não tenhas pena, sorri:
Se o tiveres no teu peito
Viverei p'ra sempre em ti..."


A jovem 'inda hesitou
Pareceu-lhe tão errado!
Mas de um golpe arrancou
O coração quase parado

E no seu peito de metal
Abriu um espaço vazio
E onde pôs o coração
Nunca mais julgou ter frio.


Mas o que era aquilo?...

Que marés de sentimentos estranhos voavam no seu peito?
Que era aquilo que lhe deixava o espírito insatisfeito?
Eram seus agora sentimentos que o não eram
E, na alma que não sabia ter,
Um turbilhão de traças esvoaçantes
Finas como punhais
O seu corpo de meta pareciam corroer.
E a jovem rapariga-máquina
No areal à beira-mar
Sentiu que uma água nova lhe lavava o rosto
Água que sabia a mar
Água que julgou vir do mar
Mas que em verdade vinha de dentro do peito
"Poderei estar a chorar?" E estacou
Suspensa num momento de silêncio...
As vagas junto à casa traziam verdes ondas
Verdes praias, verdes olhos, verdes anos
E, soltando os cabelos ao vento
Um sorriso ténue rasgando o rosto 
E dançando feliz no areal de prata
Acariciou o coração de carne e cantando
Olhou bem alto, para os céus
Para bem longe, onde a irmã pudesse ouvir:
"Minha irmã", começou, "estavas enganada
Nada é como disseste
Hoje o mar traz-me saudades de coisas que não tenho
Não são histórias, minha irmã, são segredos
Das estrelas que contámos junto ao cais
Hoje encontro na areia a matéria de mil sonhos
E a brisa canta uma melodia que só no peito posso ouvir.
Ouço-a agora
Posso ouvi-la claramente
E antes uma vida sofrida
Por tormentos conduzida
Pela tristeza anunciada
Escarnecida, mal-amada
E pelo cru amor guiada
Que a bênção de mil séculos sem uma lágrima
                                   - uma lágrima apenas -
Que purgue a alma magoada!..."