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sábado, 17 de março de 2018

Klepsydra


Ela era a última do seu tempo
Saltou do botão negro do relógio
Direita à poeira cor de cinza
Ela veio com as ondas
Da alvorada, cheia
De ar, de vento
E nada. Ela era
A última
Era.

Ela era a última das esferas
Que rodam a compasso o coração
Ela caiu da árvore da Lua,
Órfã das estrelas. Na
Boca selada ‘stava o
Sinal do deus que
Cantava e ela era
A última
‘Sfera.
  
Ela era a última Galateia
Que os mares revolve acesa. Às
Ondas ergueu a testa muda
E queda, tão alta como
Antena, agudo olhar
De seta e ela era
Da sua casa a
Última que
Viera.

Ela era a última por ser ela
Os versos de rio brotando do chão
Ela era a última e por isso era
Dos deuses a pena da inquietação.



domingo, 11 de março de 2018

Phemonoe


Deitada sob o véu claro de estrelas
Dormias; e nas mãos, abandonada,
A lamparina alegre do astro-rei
Rodava a contraponto de ouro e mel
Que teces pela boca aveludada…

Os pés cruzando a terra, lado a lado,
Pendidos no suspiro de um repente
No seio de mármore triste e alvo
Pisam a piton que entrelaçada
Nos teus sonhos dança eternamente.

Erguida ao firmamento a fronte justa
Que das veias divinas se coroa
‘Sperando não se sabe como e quando
Chegar ao homem vão o duro mando
Com que o deus amoroso o abençoa,

Anoiteces; e elevando a branca luz
Ao espaço cor de bruma em que repousas
A Lua, dormitando embevecida
Sobre leves teias de céu e ar
Derrama pesarosa pela areia
A linha carregada oracular
Dos olhos que se vão na maré cheia.



sábado, 17 de fevereiro de 2018

Nocturno II

Ó branca noite dos sussurros e segredos
Que vou deitando, devagar, à cabeceira
Manda chamar a Lua tua mensageira
Manda-a romper do seu negrume os arvoredos;

Manda-a acordar como se fora um novo dia
As avezinhas que no céu já vi cantando
E nos outeiros o rio mando que corria
Possa afagar os meus anelos como dantes...

E quando o Amor vier voltar a sua face
A quem lhe reza com o coração nas mãos
Vem só, noite nova, aspergir nos sonhos vãos
Aquela estrela que a saudade quer que enlace;

E ela brilha, com fulgor, nos olhos dela
E ela clama por quem a queira olhar assim...
Ó branca noite, que os amantes acautela
Possa essa estrela vir morar dentro de mim!...

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Tempus Lactis

An tSráid na Bríde

Na mais escura das noites
No mais secreto dos céus
A chama leva a noite;

Não sabe por quem brilha ou por quem ver
Não queima, sendo sua, a branca Lua
Só sabe ser a pena que flutua
Por entre a sombra clara do amanhecer.

A chama leva a noite e leva a terra
Saltando mão em mão pelas campinas
No céu a estrela d'alva, no chão neve
Beijava serenas flores pequeninas
E nos campos da noite ternamente
Tremendo nos estames da amargura
O Sol chegou em flor e, sem aviso,
Em cada pé de terra mansamente
Fechou em cada esquina a Lua escura
Sorrindo na corola dum narciso...




sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

sábado, 6 de janeiro de 2018

XLV

Faz frio nas campinas, longe chove
Ulula o vento norte nas montanhas
Na terra ouço cantar vozes tamanhas
Num uivo que me assombra e me comove...

O choro das corujas se demove
Ante o véu de luzes que são estranhas
E não há truque vil ou artimanhas
Que no peito calado se não prove...

A Lua circunscreve a Terra inteira
No seu voo imenso e circular
E é sua a saudade, a maré cheia:

O vento traz segredos, flores aos molhos
E é minha a mordaça secular
Da noite que se estende nos meus olhos...



quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Fado-Barcarola


Lá nas rochas por salgar
Das ilhas que o céu nao esquece
Meu amor de sal e mar
Canta às ondas e adormece...

Canta perdido o veleiro
Suspenso na maré alta:
Pela vida é marinheiro
Pelo amor a mó que falta.

Tem na fronte a triste estrela
Dos que esperam sem razão
A amargura dos que em tê-la
Vão no cais da Solidão

E vão cedo num batel
E vão cedo na água escassa
E a rede é o algoz cruel
E o luar a nau que passa...


Vejo soltar as amarras
Que te enviam só à proa
A deixar dolente as barras
Pelo vaga que atraiçoa.

Quando o sonho não mais salva
À noitinha, junto ao cais
Rezo muda à estrela d'alva
Que me envie os teus sinais.

Tenho no peito um xailinho
Feito da espuma do mar
Que choro quando, sozinho,
Vais c'o alvor pronto a zarpar.

E vais com a maré cheia
E vais com a branca lua
E o leme é a tua correia
E o mastro uma espada nua...

Amor, minh'alma é gaivota
Pequena cor de carvão;
De luto pela velha frota
Que trago no coração;


Amor! que trazes ao leme
As noites que, de fugida,
Lembram para quem não teme,
Dos males do céu, esta vida
Vem co'as ondas, vem depressa
Vem que a tempestade, essa,
A que no horizonte treme
Tem mais mares por buscar...
E nas rochas, junto ao mar,
Que em ondas tristes cantando
Versos tristes vai espalhando
Ao céu que os há-de sagrar
Meu coração ancorado
Tendo a dor por branca vela
Espera ainda a caravela
Que, o não sendo, foi só fado.


quarta-feira, 11 de outubro de 2017

A que vens, tardio Amor

A que vens, tardio Amor
Quando a Lua te enobrece?
Vens cumprir teu vil labor
De matar quem te não esquece?
Se por ti morri absorto
Por que vens matar um morto?

Mas se a minha morte vã
Não chegar p«ra teus amores
Vem no ventre da manhã
Vem cobrar meus ais em dores
Que, ai de mim! a vida tiro
Se te roubar um suspiro.



Traz então o cru punhal
Que carregas no olhar teu
Abre o peito que, afinal,
Nunca foi não mais que teu
E grava nele, corte a corte,
O teu nome, que me é morte.


quinta-feira, 5 de outubro de 2017

O Bom Pastor

XLIV

Levanta-se c'o voar das andorinhas
De luto pelos céus amargurado
E vai de vale em vale e verde prado
Trazendo no seu peito as ovelhinhas...

Murmura às brancas fontes que, sozinhas,
Correndo pelo monte abençoado
Aquele que 'scolheu para seu fado
O de fazer de si o pão, as vinhas...

E a tarde vai passando e o bom pastor
'Screvendo no cajado o vale em flor
Abraça o verde monte que anoitece;

E o anho que a seus pés lança um balido
Suspira à branca Lua e, embevecido,
Entrega-se ao seu amo e adormece...


quinta-feira, 14 de setembro de 2017

XXXVII

Não cuides, flor-bonina, que é vil sorte
O cravo que te escreve, em sangue, à pena
Cor do Estio, cor do Sol em tarde amena
Cor do cor que em versos se torna forte...

Não julgues que é d'amor ou doutra morte
Que tanjo este cantar d'alma serena
No quadro em que escrevendo a torno plena
Achada a fonte-luz, perdido o norte...

Não creias, bonina-sol, que é vivendo
Que a rosa em seu perfume se insinua
Quando tal só discorre, em vão, morrendo;

E é por estes meus credos tão dispersos
Que em te vendo singela cor de lua
Te vou desfolhando clara em meus versos!...


sexta-feira, 7 de julho de 2017

XXVIII

Perdida em noite vil, na praia gris
Coroada p'la Lua cor de prata
Sente-se um ar que de seu peso mata
Envolvido em duras sombras, vãs e vis.

Duas pedras fazem de anjos seus covis
Cada uma sem a forma ou cor exacta
E das quais se ouve, tal qual serenata
Uma voz lamentosa que assim diz:

"Boa gente que chega, tem cuidado
Pois muito vi chegar, penando, a jeito,
Mais gente que lamenta ter pecado

Sem perceber por si só o tal preceito
Que não há mais penoso ou triste fado
Que o pecado de algo se não ter feito..."

sexta-feira, 9 de junho de 2017


XXI

Sentada em seu trono de estrelas, sonho,
Uma Lua branca, cheia, assim pensa:
"Não há ser vivo que tenha indif'rença
À minha beleza, assim o suponho..."

'Sperou a noite; já o Sol risonho
Se estendeu c'o dia (é de outra pertença)
E, satisfazendo a sua querença,
Debruça-se a Lua no mar medonho:

"Mas quem é esta que vive no mar
Mais bela que eu, tão curva, invulgar?"
E, virando o rosto, ficou sisuda;

E; noite após noite, de inveja e mágoa
Não entendeu que o que vira na água
Era o seu rosto que c'o tempo muda

domingo, 9 de abril de 2017

O Cavaleiro sem Cabeça

Quando a noite já começa
E é chegada a neve fria
Uma sombra vai depressa
E contam que sombra essa
É da sombra que corria
Do cavaleiro sem cabeça.

Tem por elmo o gelo frio
Onde cabeça devia estar
É de um traço branco e esguio
O seu cavalo sombrio
E a espada feita de luar
É brandida ao desafio.




Teodora nada conta
Teodora nada espera
Teodora, moça tonta
Teodora, que afronta
Creres que o cavaleiro era
A sombra que o Sol desponta!

Tua mãe, teu bem primeiro
Tua mãe, a sós contigo
Contou-te do cavaleiro
De semblante derradeiro
Contou-te um conto antigo
E tu crê-lo verdadeiro!

E tu crê-lo ser verdade
E tu crê-lo vir um dia
Viver a realidade
Não é tua faculdade
Só vives a fantasia
Tão fora de tua idade...



Teodora, tu és sonho
És história em papel branco
E tempos há que eu suponho
Ao olhar teu véu risonho
E notar o teu ar franco
Algo ao qual eu só me oponho...

Oponho por ser do mundo
Oponho por ser real
Por ser algo infecundo
Enganoso, oriundo
De tua mente irreal
Sem que nela ache fundo...

Menina, que és criança
Menina, pequena em alma
Tua vida é a esperança
Pela bem-aventurança
Que bebeste um dia em calma
Sem cuidar do que se alcança...



Teodora sobe escadas
Da sua mansão fria
Enquanto sonha com fadas
E coisas imaginadas
Que sua mãe não queria
Que fossem tão sonhadas...

Abre a porta; o quarto frio
(De lençóis esvoaantes
Como as águas de um rio)
Tem algo mais de bravio
Do que já tivera antes
Depois de anos de vazio...

Abre a janela Teodora
E contempla a noite escura
Olha a Lua que adora
Lua que incessante chora
Sete estrelas de amargura
De receio pela aurora...



A noite passa sem ruído
Corujas voam e piam
Na cadeira, um vestido
De um branco dolorido
Daqueles que se faziam
Num tempo que é já perdido...

Um relincho a céu aberto
Acorda a Teodora
Que tem sempre sono incerto
Por seu espírito desperto
E ouve um som de espora
Vindo dos céus encoberto...

Pedras rolam; com a mão
Grande e coberta de metal
Trepa alguém com brusquidão
Teodora vê que, então
O cavaleiro, afinal,
Não vem de imaginação...


É tenaz, esta menina
Não tem medo, é teimosa
E toca a espada fina
Do cavaleiro que a fascina
E sua cabeça faltosa
Ela cria e imagina.

Sente-lo no teu fraco peito?
Teu coração a bater?
É amor ao sonho feito
É por um sentir perfeito
Pelo cavaleiro ver
Subir ao teu parapeito...



Subiu e provou verdade
Subiu e sempre é real
Teodora, tenra idade
Sobe à garupa jade
Do cavaleiro espectral
Por sua felicidade...

O cavalo já não corre
Abre as asas, ganha voo
E afasta-se da torre,
Do quarto onde se morre
Sem hipótese de revoo
Todo sonho que discorre...

E voa
Enevoa
A própria verdade
E cede
Concede
Toda a liberdade
São medos
São ledos
Que ocultam a Lua
São aves
São chaves
Da noite que é sua
Que abrem
Que fazem
Sentir transparente
O vento
O alento
De sentir-se gente
De sonhos
Mais sonhos
De monstros medonhos
De espadas cortantes
De voos rasantes
Ah, não ser como dantes!
Engolir o mundo
Saudoso
Profundo
Num poço do peito
Perdido
Desfeito
Em sonhos que voam
Povoam
A alma inquieta
E sobem
E sobem
E crescem
Florescem
E abrem
E abrem
E forçam
E abraçam
Todo o infinito
Que é tão mais perto
E rápido
Tão certo
E, no céu aberto
Suspiro enfim
Sou livre! Por fim!
Na alma que passa, que passa, que passa, que passa...

Tomba um corpo em fraco estado
Teodora adormecera
E o cavaleiro decepado
Ordena ao cavalo alado
Que volte p'ra onde viera
A volta tinha acabado.

A noite já ia finda
E o cavaleiro, com cuidado
Passa a mão na fronte linda
De Teodora; a menina
De rosto feliz e cansado
Já deitada dorme ainda...

Dorme, dorme, Teodora
Amanhã será um sonho
Esquece a espada, a espora
E o que a razão ignora
E lembra o céu medonho
Como quem nunca lá fora...


Uma sombra rasga o ar
Fecha rápida a janela
Encerrando a donzela
Em seu leito, a sonhar
Com a verdade que é dela
Ser sonho ou realidade
É pergunta, desatino
É tesouro fraco, fino
Pois que toda a verdade
É senhora do destino
E, quando a noite já começa
E é chegada a neve fria
A sombra ainda rasga o ar
Rasga o ar e vai depressa
Em seu cavalo sombrio
Por névoa, gelo frio
E se algures a branca Lua
Destacar, já findo o dia
Uma espada longa e fria
Saibam pois que sombra essa
Que os nossos sonhos leva
É a sombra que regressa
Submersa em noite e treva
Do cavaleiro sem cabeça.


quarta-feira, 5 de abril de 2017

Dama de Espadas

Contam os contos de fadas
Que na serra (quem diria!)
No reino das Cem Escadas
Em terras abandonadas
Perdida na noite fria
Viveu a Dama de Espadas.

A Lua é sua companheira
Um gato preto dorme ao lado
E dos sonhos prisioneira
Deitada a vida inteira
Tem por cobertor um manto
Que lhe cai pela esteira.

"Minha dama, senhora minha"
Chama o gato com doçura
"Como se chama a luzinha
Que aquela estrela tinha?"
"É a vontade, criatura,
Que vive na estrela sozinha."


"Minha senhora, nesta rua"
Torna o gato, impetuoso,
"Uma sombra se insinua
Que quer a alma que é tua."
"É algo mau, monstruoso,
É a mentira nua e crua."

"Minha rainha, que a sorte o quis,
El-Rei perguntou por vós
Perguntou por que fugis
Deixou um escrito; que vos diz?"
"Dobrada, envolta em nós,
Deixou-me uma flor-de-lis;

Gatos não são bons escritores
Mas a servir não são maus
Vai-me ao Jardim das Dores
Colhe-me uma carta em flores
E manda-a p'lo Duque de Paus
De volta aos seus senhores."




Passa a noite, chega o dia
E a dama escura e preta
Que em nada crê na magia
Ousa seguir a fantasia
Tira um vestido da gaveta
Sem saber o que viria...

Abre-se a terra num repente
Partem-se espelhos em volta
Tudo é feito em sua mente
Mas porque a dama o consente
Deixa o sonho que se solta
E que vive realmente.

Estava tudo como lembrava:
Giram relógios ao contrário
O ribeiro azul cantava
E num eco que rasgava
Um rochedo solitário
O Valete de Paus chamava.


Chamava, ela assim pensa
Como poderia saber?
Pela sua dor intensa
E, lá na floresta densa
Desataram a correr
Desbravando a mata extensa.

Quanta doçura, quanta saudade
Quantos tempos se passaram!
Meses, anos... a eternidade...
Tanto dia claro, tempestade
Até que os tempos recuaram
Por longínqua lealdade...

Cessam ventos imortais
Cessam vozes murmuradas
Trocam notas musicais
Sonhos que agora são iguais
E trocam palavras dadas
Por um códex de sinais...

Num acto de triste ilusão
Ambos se encontram deitados
Sem pensar com a razão
Como que em adoração
Um do outro, descompassados,
Ouvem bater o coração.

É noite alta, chega o sono
A respiração já é dormente
E no peito, ao abandono,
No seu ritmo dolente
Seguem o coração quente
Do qual não conhecem dono...

Adormece a dama escura
Recordam-se palavras loucas
E sugada por candura
Do denso negro fez alvura
Tornou-se Dama de Copas
E de espadas fez ternura...

Passam tempos... não sei quantos
Os relógios já pararam
E em sua torre de encantos
A dama se encontra deitada
Perdida em seus quebrantos
As suas vestes se tornaram
Em negro pó sem magia
E na serra (quem diria)
Em terras abandonadas
Perdida na noite fria
No reino das Cem Escadas
Com um coração nas mãos
Que julga não ser o seu
Porque de amor se perdeu
Já não é Dama de Espadas.


sábado, 1 de abril de 2017

Era uma vez


Era uma vez, há muito tempo atrás
Num tempo ou contratempo já perdido
Uma torre sem janelas ou escadas
Um caminho que se corre sem sentido
Uma luz perdida no céu nocturno
Uma terra sem plantas e sem cor
Uma voz que ecoa nas montanhas
Uma fonte onde a saudade bebe a dor.

Era uma vez, há muito tempo atrás
Sob um Sol cuja luz é já sem vida
Um campo em cuja terra houve flores
Que enterram a ausência já perdida
Há dois cães desbravando os caminhos
Encobertos por mantos de sal e fel
Há duas luas já sem boca e sem olhos
E cujas vozes soam a leite e mel.

Há dois sapatos rotos e já gastos
Fartos de engolir o pó da terra
Há dois vestidos escondidos na gaveta
Que são as vestes da paz e irmã guerra
Há dois corpos que se encostam num sussurro
Perdidos na pedra dura da calçada
Há duas lágrimas pela noite fugitivas
Recolhidas pela boca abandonada.


Era uma vez, há muito tempo atrás,
Dois sonhos que já partiram e voltaram
Há duas pedras encobertas pelo vento
Que de rocha para água se tornaram
Há duas mãos revestidas de veludo
Enlaçadas pela noite que perece
É a dama coberta de noite e estrelas
Abraçada ao valete que a adormece.

Era uma vez, há muito tempo atrás,
Duas sombras na penumbra que se esfuma
E que findo o Sol, chegada a Lua,
Eu as vi e julguei serem só uma
Há dois copos de licor sobre uma mesa
Que Esperança e Ansiedade abandonaram
Ao ver, cobertos pelo quente Estio,
Dois lábios que, por amor, pecaram.

Há quatro valsas de saias brancas que
Por estrelas de quatro cores são veladas
Há quatro palavras surdas não ditas
Enterradas na poeira das estradas
Há quatro braços no céu perdidos
Rasgando os véus de luz e treva
Dois que levam corpos de Lua e Sol
Outros dois envolvendo quem os leva.


"Era uma vez" é sonho azul, errante
É ser-se erróneo na vontade, triste fado
É a areia de tempos já perdidos
É água fria e doce, vidro pintado
É pleonasmo de esperar pela esperança
Que o céu azul prometeu um dia
É enterrarmos nossa alma fria e crua
Num coração quente que batia;

É prometermos, vãos, a nossa vida
À vida pela qual, em vão, morremos
É história infinda, feita, forçada
Que escolhemos como nossa porque qu'remos
É criamos nossas folhas e raízes
De árvores altas, mil, fazer altares
É afogarmos nosso sopro noutro sopro
É na terra amargurada vencer mares.

Nesses tempos que se lembram e não voltam
Dos quais não há voz ou céu que conte
Eu recolho as estrelas que se soltam
E delas faço grinaldas a jeito
De cobrir, à meia-noite, a tua fronte
E perdendo os meus sonhos no horizonte
Lembrando-me, dormente, no teu peito
Nas tramas sem lei que a vida faz
Escuto o teu coração que eu suponho
Ainda contar ao meu, como num sonho
Era uma vez... há muito tempo atrás...







terça-feira, 10 de janeiro de 2017


XI

Ornada pela Lua a noite corria
E o vento forte e gélido cortava
E um peito fraco em vão segurava
Um rubro coração que, triste, batia...

Coberto de ira o meu ser ardia
E; raivoso, contra Deus gritava
Ao ver que aquela dama que eu amava
Envolta em meus braços, por fim, morria:

"Ah! Como dentro de mim Te condeno!
Que a tragas de volta de volta não peço: ordeno!"
E passada a ira, responde Deus:

"Tudo quanto eu crio tem o seu lugar
E carrego ess'alma que tu vês findar
Que o lugar dos anjos é aqui nos Céus..."

sábado, 24 de dezembro de 2016


VI

No meio da noite triste e escura
Com o disco lunar redondo, brilhante,
Esperançoso, quão dúbio amante,
O terno pássaro, em vão, procura...

As horas passam, a noite continua
Perdem-se as penas, os olhos, a vida
E a ave jazeu, morta, perdida,
No meio da noite triste e escura...

De cálidas mãos para vil criatura
De urtigas feita, que fere e tortura
De lágrimas claras forma mil defeitos:

Eis o rosto daquela que augura
Que em pobres rimas mata, enclausura
Meus versos perdidos e sonhos desfeitos.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Quadras ao Gosto Popular

Sonhos com a minha aldeia
Oh, que me deixais assim,
Quanto mais me vem à ideia
Mais me afasto de mim...!

Mais que ter um bom amante
É melhor um bom amigo;
Estas e outras coisas penso
Quando me sento só comigo.

Aquela estátua é perfeita
Só não tem um coração;
- Ó senhores, dai-lhe o meu,
Que é de pedra a Solidão...


Melhor a vida de uma árvore
Que a minha como eu sou:
Estas coisas sei-as eu
E ninguém mas ensinou.

Despedes-te de mim à porta
Com toda a graça que é tua
E entrando o corpo em casa
Deixei minh'alma na rua.

Oh, que moçã tão bonita!
Oh, que olhos de luar!
Oh, que moça tão bonita
Para comigo casar!

Doba, doba, dobadoira
Doba raios de luar
Doba, doba, dobadoira
E minha mãe a chorar!


Chora, chora a minha mãe
E passa a noite a dobar
Por meu pai que já partiu
Que 'inda está em alto mar.

Fui com minha prima à eira
Procurar o milho-rei
Encontrou-o, é Rainha
E eu não me conformei.

Dou-te tudo o que eu sou
Mas não me leves a mal:
O coração não to dou
Que esse é de Portugal!

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Trezentos e Quarenta e Três Mil Seiscentos e Vinte e Um


Trezentos e quarenta e três mil
Seiscentos e vinte e um
São os dias de vida da flor cor-de-rosa.

Trezentos e quarenta e três mil
Seiscentos e vinte e um
Tiraram-se uns três mil:
Trezentos e quarenta mil
Seiscentos e vinte e um
E não deixa de ser tempo a mais
Para uma flor cor-de-rosa.

Trezentos e quarenta mil
Seiscentos e vinte e um
Tiraram-se uns seiscentos:
Trezentos e quarenta mil
E vinte e um
E um número deu a mão à vogal.

Sim, "um" número
Porque além de numeral cardinal
Também tem função linguística
(Mas quanto será mesmo um?)

Trezentos e quarenta mil
E vinte e um
Tiraram-se uns quarenta mil:
Trezentos mil
E vinte e um
Sóis viu nascer a flor cor-de-rosa
Quando se abria, irradiava a Lua
Quando fechava, o Sol voltava para a ver...

Trezentos mil
E vinte e um
Tiraram-se uns vinte e um:
Trezentas mil vezes
O colíbri namorou a flor cor-de-rosa
Sem que esta se dignasse a voltar-lhe a corola.
Mas porquê o ar gélido
De uma flor que era o Sol?

Trezentos mil...
Se os tirarmos...
O que fica...?

Trezentos e quarenta e três mil
Seiscentos e vinte e um
São os dias de vida da flor cor-de-rosa
Sem que esta merecesse tempo algum.
Devagar ou depressa
A vida acontece.

Trezentos e quarenta e três mil
Seiscentos e vinte e um
Tiraram-se todos num repente
E porque a vida o consente
O resultado é: nenhum.