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sexta-feira, 18 de agosto de 2017

As Portas da Montanha


Vem, meu irmão que te aproximas,
Segue o teu caminho, escuta a minha voz
Aquela que ouves, perdida, no nevoeiro cinzento
Aceita o meu convite e descansa os teus pés cansados da viagem
E a ti te dou a minha bênção:
Comigo tenho a chave das portas da montanha
Leva-a e entra, mas quando abrires as portas
Marca o teu rosto como chave para a visita
E imagina seres um cântaro vazio
De que os deuses se esqueceram, abandonado à sua triste sorte
E nessa altura eu seguirei contigo
A minha voz na tua cabeça
E a montanha no teu coração…

Vem!
Vem que eu ensino-te a fazer navios de cascas de nozes
E o deleite de neles ensinares os teus sonhos a navegar
Ensino-te a atravessar os caminhos sem deixares pegadas que sejam tuas
E a magia de sentires uma estrela brilhante dentro do peito
E todo tu te abrires em flor…
Por entre a escuridão das terras revoltadas descobrirás o calor do Inferno
Mas que as suas chamas são a vida para o Paraíso que transporta
Onde o verdadeiro diabo não é mais que um artífice
Que amassa a argila que os deuses criaram…

Podes pertencer aos homens e alguns homens pertencerem-te a ti
Podes guiar mil seres e outros tantos beijarem-te os pés
Podes deitar as mãos ao barro e dele fazer maravilhas
Que, no fim, quem te seguirá com fé inquebrantável?
O que sobreviverá ao tempo imperdoável?
Quem te amará tanto como a si mesmo?
Apenas as montanhas continuarão a erguer os seus pináculos de catedrais
Apenas os campos darão o seu regaço ao luar
Apenas os sinos do alvorecer ecoarão no horizonte
E no meio da maior das tempestades só as árvores se manterão
Como mastros de um barco que enfrenta a mais cruel das ondas
O maior dos vulcões criará o mais belo dos diamantes
A terra rebentará, os penedos cederão
E os rios e as lagoas assomarão com o seu exército de cristal
E apenas eles estarão lá para te matar a sede…

Vem e ouve!
Vem e escuta o som do sangue das montanhas nos regatos que desfazem a terra!
Vem e curva-te diante dos rochedos, os anciães da montanha!
Vem e vibra quando ouvires, ao longe, as trombetas proféticas das avalanches
E treme com o gelo que estala como o ribombar de um trovão!
O meu rosto ostenta as rugas de mil Outonos
Mas a minha alma canta como uma andorinha na Primavera;
A minha pele está queimada com as marcas de mil Invernos
Mas o meu coração arde e inflama-se num Verão eterno!


Mas não chores, meu irmão, não chores mais
Descansa as tuas rugas, a tua alma, a tua pele e o teu coração
Também o céu precisa de chorar para te trazer as flores na Primavera
Deita as tuas lágrimas ao vento, semeia-te e cultiva-te:
Que o teu coração não conheça mais senão flores
Que as tuas mãos não colham mais senão flores
E ensinem os outros a plantar flores
Que a tua boca não profira mais senão palavras perfumadas
Que a chuva seja o teu baptismo de todos os dias
E que o Sol quente no teu rosto seja o último beijo que levas desta vida…

(Quando a minha alma atravessar o rio despojar-me-ei de tudo
Não me importarei de deixar tudo
Mas rogarei a Deus no seu trono de estrelas que tenha piedade de mim
E que me deixe levar comigo como último bem desta vida um pedaço de terra
Um pequeno e simples pedaço de terra
Para levar comigo a recordação dos montes e dos vales perdidos…)

Quando saíres guarda a chave
Fecha as portas da montanha, limpa o rosto e ajoelha-te só contigo
Sente o vento pentear-te os cabelos com ternura
Planta as tuas mágoas para que se transformem em belas árvores viçosas
E aprende a força dos rochedos silenciosos
E, quando a montanha adormecer no nevoeiro cinzento,
Aproxima o teu rosto do seu rosto e, com um suspiro de amor,

Beija a mãe que te embalará na sepultura…


quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Memórias



É uma tarde de Inverno
Redundantemente uma tarde de mim
E, abrigado debaixo dos pinheiros nevados,
Descalço, que o frio nunca me incomodou,
As mãos já insensíveis ao calor do corpo
E a alma mais insensível ao do coração
Vou contando flocos de neve
Contando lentos flocos de neve
Que se afogam no mar de gelo…

Ao longe vejo a casa, aquela que em teoria é minha,
Deixou de o ser quando a minha avó partiu
O meu grave pai deve estar junto à lareira
A minha adorada irmã deve estar a chorar
E a minha mãe, consternada, chama-me;
Só eu é que estou debaixo dos pinheiros nevados
A cabeça dormente, o coração quase parado
E desejo cá ficar eternamente…





Mas eu estou em casa! A neve é a minha casa
O Inverno mais o frio que ele traz
A minha mãe adora o Verão e resmunga no Inverno
É dizer, resmunga comigo então também,
Porque eu não sei ser mais senão Inverno;
Calor nenhum do Verão me dará o conforto
Que o ópio que uma noite invernosa me traz
E é nestas alturas que eu me enterro na neve
Que eu me enterro até ao pescoço na neve
Esperando ser uma estátua de gelo
E ser finalmente uma vez mais parecido comigo…









Ouço ao longe, ergo a cabeça
Espreguiço um pouco a mente vazia
A mente cheia de branco e de nada
Branco de neve e nada como eu
E exclamo para mim que é desta que não volto
Que vou ficar aqui no meu reino de gelo
E dele fazer as minhas maravilhas;
A minha pele branca já é quase cinzenta
Cinzenta do frio e cinzenta dos pinheiros
Que sussurram por entre a folhagem…





Não vou!
Já disse que não vou!
Deixai-me ficar por entre os pinheiros cinzentos
E que eu me confunda com o cinzento dos pinheiros
Se às pessoas sou vil e mesquinho
Se lhes fiz conhecer a amargura de carácter (dizem elas)
Se lhes dou mais mal que bem
Deixai-me ficar entre os pinheiros cinzentos
Entre os nobres e graves pinheiros cinzentos
Pois se nunca a uma árvore ou a uma planta fiz o mal
Não se incomodarão se viver entre eles…

Deixai-me gelar!
Deixai-me fundir com a neve branca e ser uma estátua de gelo
Sempre sonhei poder ser uma estátua gelada
E adormecer por entre a neve e os pinheiros
E na chegada do quente Estio
Daria de beber às jovens flores.
Sou o Inverno e ninguém gosta do Inverno
E por isso desejo ser uma estátua de gelo
E sonho o dia em que alguém mais afoito
Pudesse chegar e dizer “este menino tem frio”
E em me abraçando me fizesse derreter e morrer a mais bela das mortes…


Oferecem-me doces…
Ah, os doces! A primeira moeda que conheci!
Que nostalgia, que lonjura por esses doces
Aqueles que me faziam esquecer que me troquei por doces
E que eram a resposta para todas as quezílias;
Manda-se e paga-se com doces
E assim se vão ensinando as gerações…
Mas olha, guarda os teus doces
Que eu preferia mil vezes mais um abraço que derretesse o gelo frio
Que a ainda mais fria política dos doces…

(Esta parte é devaneio, contudo;
Nunca lhes dei tal resposta nem ela o soube
E mesmo sabendo talvez não fizesse diferença nenhuma
Pois o mundo - o nosso - não pode funcionar sem moeda:
Mentir-me-ia se me conquistasse com um abraço e não doces…

… Ah… os doces…
Não foi por tantos doces que tive que me tornei menos amargo
Talvez não seja assim que se adoçam pessoas
Não sou uma peça de culinária…)


 


Mas sabem, ainda hoje me oferecem doces
Talvez não os mesmos, mas de outras maneiras
Ocultos num beijo, numa frase, num sorriso
Que na verdade mais não são que doces
Mentirosos doces e moedas para câmbio
E eu, que para além de caro ainda sou pobre
E não tenho moedas de natureza nenhuma
Por não saber mentir também nada compro
E ando por aí, de mãos nos bolsos, a fazer contas
Quanto vali hoje, de quanto perdi em não me ter vendido
De quanto será o valor no dia em que me vender
E até de quantas vezes me venderei
Que aguentar comigo, sei-o bem, não é tarefa de uma vida
E com isto no meu peito vai nevando
E sentado vou sonhado debaixo dos pinheiros cinzentos…





(Nos meus sonhos há uma grande casa branca
Uma solitária mas feliz casa branca
E, na entrada, de braços estendidos em flor,
Uma figura me convida e sorri
E eu, criança perdida nos pinheiros cinzentos,
Ergo-me e choro flocos de neve
E, por um momento, aceito os doces
Aceito o sorriso, aceito o abraço
E suspiro: até o Inverno gosta de se sentar à lareira de vez em quando
E talvez por isso seja tão frio, para que se lhe acendam várias lareiras…)

No final do seu tempo o Inverno diz:

- Vou morrer. Acordem-me quando chegar a Primavera…


quinta-feira, 4 de maio de 2017

Moça dos Olhos Cinza


Assobio uma canção enquanto caminho sozinho na rua
O mar ao fundo espelha o cinzento do céu
As nuvens passam, lentas, em direcção nenhuma
E eu tiro o relógio do bolso, que continua parado...

(Era perto das onze da noite quando a vi
Unhas mal cortadas, cabelo em desalinho
Lábios gretados, sinal no queixo
Mãos grandes, cheiro a fumo e a bebida
Encostava o corpo magro junto à janela;
Na mão esquerda o cigarro adormecido...)

Chuto uma pedra, tarde aborrecida...!
Uma cameleira ensombra o caminho
Subo o muro da senhora da casa dos gatos
E apanho uma camélia vermelha...

(Riem-se as pessoas, lá fora chove
A minha cadeira geme estando eu sentado
Levanto-me, pouso o copo, puxo-lhe um braço;
Ela apaga o cigarro que atira pela janela
Eu olho-a nos olhos cinza que enfeitam o rosto ossudo
E ela sorri-me com os seus dentes enormes...)

Passo pelos vidros limpos de uma loja
Com as mãos alinho o cabelo, arranjo o casaco
Limpo os sapatos ao musgo das pedras
E olho e torno a olhar a minha boca (espera-se que) limpa...

(Um homem senta-se ao piano com as mãos que tremem
Começa a tocar, ri-se sozinho, as notas ao lado
Ensaio uns passos de dança sem jeito algum
Com um braço seguro-lhe a cinta estreita
Com o outro o pau de braço que ela tem
E ela gira e dança em torno de mim e de si própria...)

Já entro pela porta do café da noite de ontem
A minha cadeira, não a vejo (quiçá partiu-se...)
Sento-me no banco alto do balcão
- A rapariga dos olhos cinza, quem a viu? - Desculpe, por aqui ela não passou...

(Já não existo, já não sou eu, já só é ela!
O vestido roxo está-lhe largo, leva os meus pensamentos
Tão mau cabelo, tão má boca, tão mau corpo
E no entanto toda ela é dança, ar, vento, sonho!
Adoro-a, a ela e ao fumo que ela traz
E, secreto, quero ser o álcool que ela bebe...)

O relógio está parado, não obstante o tempo anda
Como o sei? Pelos copos que já bebi.
Bato com a palma da mão no balcão
- A rapariga dos olhos cinza, quem a viu? - Desculpe, já partiu de madrugada...

(criiiich! click! tick!
Secretamente ouço qualquer coisa a partir-se
Foi comigo, talvez o coração, se o foi por dentro...)

Olhem-me, esta é que foi boa!
Anda um homem a apanhar camélias porque rosas não viu
São vermelhas, disfarçam bem, não se pode querer tudo
Veste o melhor dos casacos como se não tivesse mais velhos para romper
Arranja o cabelo com as mãos porque a água está cara
Limpa os sapatos ao musgo porque não tem nenhuns mais limpos
Nem os mandou limpar porque não tem dinheiro
E talvez até tenha, mas não fica nem com um tostão furado para se consolar
Só porque se perdeu por uma mulher sem eira nem beira!
Olhem que isto já dizia o Poeta muito bem, o mundo anda desconsertado
E enquanto ele se desconserta e conserta ou o que o valha esqueçamos, que a vida é breve...

(Escorre sangue da minha mão, limpo à camisa
Alvíssaras! O coração está inteiro, graças a Deus,
Afinal foi o copo que eu apertei com força.)



segunda-feira, 13 de março de 2017

Europa


Vi-te na estrada para Delphos
Com uma ânfora segura à cabeça
A cidade ao longe desvanece-se
Perde-se numa névoa cor de cinza
Já sem cor nas paredes centenárias
A estrada para Delphos
Oculta-se na poeira dos caminhos.

Vi-te na estrada para Delphos
O oráculo repousa ao pé do rio
A ânfora na tua cabeça partira-a eu
Em tempos de que perco a memória
Uma sereia rasga os céus e a estrada
O vento Austro geme cansado
E dá lugar para cantar à minha lira.

Vi-te na estrada para Delphos
Junto a colunas frias de mármore
As flores fecham, os pássaros partem
Créos massivo irrompe das nuvens
O rio passa como o tempo que passa
O nosso barco entra no mar alto
A saudade corta o vento que nos leva...

A luz já não é forte, é fraca e fria
A noite escura e triste acaba o dia,
A sombra de Delphos longe é já perdida;

E mesmo resvalando a terra inteira
O nosso touro é o barco de madeira
E tu a Europa rumo à terra prometida...


terça-feira, 1 de novembro de 2016

...


a tarde passava silenciosa, cinzenta

ainda eu nem nome teria
e mesmo sem experiência de vida
fui eu que te baptizei
e dei-te um nome: 'vó

sim, 'vó e não avó
porque o número de letras não importa
e era de maior jeito um nome mais curto
visto que o chamava muitas vezes

guardo comigo na memória
as histórias que sempre pedia
mas porquê, 'vó, explica-me
por que eram sempre tão tristes?

a tarde passava silenciosa, cinzenta
e caminhando triste no jardim da minha vida
entristeço-me

mas o tempo não pára
árvores já ganharam e perderam folhas
rios já encheram e já vazaram
flores já nasceram e já murcharam

as estações sucedem-se
e, tal como já fui pequena um dia
agora estou grande, cresci
e se visses como estou enorme

tal como o número de letras
também o tamanho não importa
porque ainda continuo a ser
a menina das trancinhas e dos folhos
que fielmente todas as noites
quando o sono custa a chegar
ainda pede como quem pede o mundo
(o meu)
"avó, conta-me uma história"

a tarde passava silenciosa, cinzenta
e caminhando triste no jardim da minha vida
entristeço-me
quando vejo que hoje um banco está vazio

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

A Boneca

Dois tiros...

A cidade está calma, silenciosa;
No ar, o silêncio mata
E por entre ares tóxicos e venenos
Soa a sinfonia de dois tiros...

Um pássaro morto jaz no chão
Jaz sem asas e sem bico:
Levaram-no os insectos
Que sobrevivem na terra estéril de cinza...

Recordações, tantas vidas, tantos sonhos!
Agora os incêndios iluminam a cidade
Partes de corpos (do que parece) enfeitam as janelas
O rio que corre na rua é vermelho...

Dois tiros...
Uma criança...

A criança olha, em pé, consigo a boneca
E o seu coração está vazio, ferido
E o chão queimado é humedecido
Por inocência vermelha que, com Sol, não seca...

Menina, criança, não chores!
A boneca, rota, deu-lha sua mãe
Mas a mãe já não está, não lhe pega ao colo
Qual deles, qual dos vultos no chão seria a sua mãe?

És um cadáver, cidade, estás morta
E contigo morrem os sonhos, esperanças;
Queimem-se os vossos telhados de dor e angústia
Derrubem-se as paredes sádicas e hipócritas!

Dois tiros...
Uma criança...

Cai a boneca...

domingo, 16 de outubro de 2016

És




És uma uma névoa de cinza que
Em cada vez se aproximando
Mais me mata e sufoca
Sem que no entanto eu creia
Essa morte penosa...