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quarta-feira, 14 de março de 2018

Reges Esuriae

Ou de como Quatro Reis sem terra chegaram a Castro Marim


O primeiro rei veio na linha
Sombria do céu crepuscular
Os anéis de sal e mar rodando nos dedos de areia
O segundo rei teceu passagem
Nas cruas dunas do Levante
Perdidas as suas mãos torradas pelos beijos de mil sóis
O terceiro rei ergueu a noite
No punho a espada de meia-lua
E o sorriso das esfinges escondido na boca de uva

Só o quarto rei veio mudo e quedo
As veias da fria terra são seus cabelos
E a cruz que traz nos olhos junto ao peito
Lembra a branca aurora que, dourada
Se espalha lentamente de mansinho
Nas duras pedras rubras da calçada…



domingo, 11 de março de 2018

Phemonoe


Deitada sob o véu claro de estrelas
Dormias; e nas mãos, abandonada,
A lamparina alegre do astro-rei
Rodava a contraponto de ouro e mel
Que teces pela boca aveludada…

Os pés cruzando a terra, lado a lado,
Pendidos no suspiro de um repente
No seio de mármore triste e alvo
Pisam a piton que entrelaçada
Nos teus sonhos dança eternamente.

Erguida ao firmamento a fronte justa
Que das veias divinas se coroa
‘Sperando não se sabe como e quando
Chegar ao homem vão o duro mando
Com que o deus amoroso o abençoa,

Anoiteces; e elevando a branca luz
Ao espaço cor de bruma em que repousas
A Lua, dormitando embevecida
Sobre leves teias de céu e ar
Derrama pesarosa pela areia
A linha carregada oracular
Dos olhos que se vão na maré cheia.



quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Tempus Lactis

An tSráid na Bríde

Na mais escura das noites
No mais secreto dos céus
A chama leva a noite;

Não sabe por quem brilha ou por quem ver
Não queima, sendo sua, a branca Lua
Só sabe ser a pena que flutua
Por entre a sombra clara do amanhecer.

A chama leva a noite e leva a terra
Saltando mão em mão pelas campinas
No céu a estrela d'alva, no chão neve
Beijava serenas flores pequeninas
E nos campos da noite ternamente
Tremendo nos estames da amargura
O Sol chegou em flor e, sem aviso,
Em cada pé de terra mansamente
Fechou em cada esquina a Lua escura
Sorrindo na corola dum narciso...




segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Et Ressurrexit

Ou da Páscoa

A mulher-pássaro abriu os braços
Deixou no sepulcro a laje tombada
Largou o sudário, vestiu madrugada
E abriu no peito o Sol em flor
E lançando ao mar os olhos baços
Salgados nas ondas de breu e dor
Nos céus desfolhou-se em mil beijos
Beijos para as pedras
Para o coração
Beijos para as trevas
Para as penas no chão..



sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Cançoneta

São verdes os rios que levam
Saudades do meu amor
E nos barcos que se entregam
Aos amantes que navegam
Sem saber rei ou senhor,

O meu amor parte, parte
Parte sempre a navegar
Foi p’rá liça guerrear
Foi servir com sua arte
Lá nas terras d’além mar
Leva os sonhos por ‘standarte
- Quem sabe se há-de voltar?

São azuis os céus que guardam
Os olhos do meu caro bem
E nas ondas que sossegam
Os corações que lhe entregam
Dos que ficam sem ninguém,

O meu amor canta, canta,
Canta sempre a navegar
Os sinos que ouviu tocar
Lá na terra que lhe encanta
Das montanhas por sagrar
Onde o sol se alevanta
- Quem sabe se há-de chegar?

(São negros os montes que velam
As almas apaixonadas
São altos espinhos que zelam
E no coração revelam
Leves penas, vis espadas)

São verdes os rios que levam
Saudades de quem me levou
Nas amarras que se entregam
Daqueles que então navegam
E não sabendo por onde vou

O meu amor sonha, sonha
Sonha em mim no alto mar
Traz nas mãos ao abandono
O meu coração sem dono
E a testa por singrar
E levando por ‘standarte
Aquela que deu por trono
O engenho, zelo e arte
A quem a não soube ver
Quem sabe se há-de voltar,
Quem sabe se há-de sofrer,
Quem sabe se há-de morrer,
Quem sabe se há-de acordar?


domingo, 1 de outubro de 2017

XLII

Pedira a vã donzela certo dia
Ao velho cavaleiro seu amado
"Trouxeras-me o bem rico mais cuidado
E minha mão d'alvura eu te daria!..."

'Squecendo todo o dano que faria
Ao seu peito de guerras destroçado
O cavaleiro arranca com um brado
O coração d'ouro co'a espada fria...

Mas vendo a fulva jóia desbotada
A jovem, atirando a pedra ao nada,
Disse "Quebrada está! Que serventia?"

A jóia se esvaiu em lume brando
Rompeu-se em sete sóis e, suspirando
'Spraiou-se com a luz do novo dia!...


quinta-feira, 14 de setembro de 2017

XXXVII

Não cuides, flor-bonina, que é vil sorte
O cravo que te escreve, em sangue, à pena
Cor do Estio, cor do Sol em tarde amena
Cor do cor que em versos se torna forte...

Não julgues que é d'amor ou doutra morte
Que tanjo este cantar d'alma serena
No quadro em que escrevendo a torno plena
Achada a fonte-luz, perdido o norte...

Não creias, bonina-sol, que é vivendo
Que a rosa em seu perfume se insinua
Quando tal só discorre, em vão, morrendo;

E é por estes meus credos tão dispersos
Que em te vendo singela cor de lua
Te vou desfolhando clara em meus versos!...


domingo, 13 de agosto de 2017

Despedida

Vem de tarde, meu amor, vem dolente
Vem de tarde e vem dormir junto ao rio
Estende junto à fonte o coração
O teu pálido coração de louça
Vaso sem rosas que lhe deem cor…
Tu vieste meu amor, a boca em sede
Mas não pudeste beber porque dormias
Dormias nas pedras da calçada
Junto ao nome feito em pedra que te dei
Dormias com o coração nas mãos, esperando,
Esperando as rosas rubras que, viçosas,
Tornariam a tua alma em flor!


Vê as águas que passam e lembras-te, amor?
Lembras-te de quando entrei no teu jardim?
Uma flor branca crescia e eu colhi-a
E levei-a comigo como quem leva um pertence
Porque fizeste meu o teu jardim
E agora eras tu quem esperava junto ao meu rio…
  

Mas perdoa, amor
Perdoa porque quando te ofereci as rosas já elas tinham macerado
Perdoa porque quando te levei ao rio já as águas tinham gelado
Perdoa porque quando te quis matar a sede já a fonte tinha secado
E o teu coração estava tão frio que o não pude aquecer nas mãos…

Mas não chores, meu amor, não chores mais
Não chores as rosas secas junto ao peito
Não chores as lágrimas debruçadas junto ao rio
No tempo em que debruçados junto ao rio
Fazíamos dos nossos sonhos barquinhos de papel…
Não chores a sede porque a sede morta não é mais que morte
E, quem sabe, sem a sede nunca teríamos procurado a nossa fonte…
Não chores rios, nem as rosas, nem as fontes
Chora apenas o fadado coração
O silencioso e triste coração
Que sofre por se não poder derramar pelos olhos!

(O vento norte varre as sarças num sussurro
E, no horizonte, um barco levanta voo)

Mas sabes, meu amor
Ainda hoje tenho as rosas à cabeceira
As rosas escuras, maceradas
Que colhi um dia do teu coração…
Ainda canto, a cada suspiro meu, o sibilar rio que passa
Que me mata a sede nas horas da saudade.
Ainda gravo o teu nome junto à fonte
Nas pedras que plantámos na calçada.
Escrevo-o como se fora o meu, letra a letra
Letra a letra murmurado no meu peito
Letra a letra a cada batida lenta do meu coração…

… …
Raiva de não cair no meu peito a tua alma desfolhada!

Vai, amor
Vai no teu barquinho de papel
Sonho-te a foz, o sol poente
O infinito.


… …
Adeus, amor
Encontrar-te-ei um dia
Dormindo sereno no perfume das rosas


quarta-feira, 26 de julho de 2017

Apoteose do Poeta I



Lembro-me como se tivesse sido ontem...

Era de tarde quando uma voz se ouviu:
"Eis o poeta que sobe a montanha!"

O céu era azul; o Sol era ameno
E o poeta, mudo e quedo como as flores,
Escondia pela flauta suas dores
E cantava, em voz sumida, ao céu sereno:






"Abre uma rosa na neve branca e pura
Envolta em cristais; o vento frio ruge
E adivinhando o destino para que surge
Acorda e remete em rubra doçura
Que a é pelos espinhos, pelo perfume
Desta rosa na neve branca aberta...
Que, de rubra cor, então desperta
A própria luz do Sol que assume
Num raio apesar de apaixonado:
'De tão esquivos olhos não moura e pereça
E embora o coração sofra e sem proveito
Teima em escrever no mármore abandonado
As treze letras que juntou dentro do peito...' "






Cantam os rios, as cigarras, os grilos
Ao longe, um pássaro pia
E um cão, alegre, corria
Atrás de um pato que, em susto, grasnava.
O vento dança com as árvores
E o poeta puxa de uma pedra
Dura e fria como o gelo, mas
Que para ele era uma nuvem branca e leve
E na qual deita a sua cabeça de borboleta;
Fecham-se os olhos, abrem-se os sonhos
E o poeta já não dorme: voa
E com ele as suas flores, a sua flauta, as suas nuvens
Anjos levam-no envolto em braços
E sentam-no numa cadeira de ouro
Na qual o poeta, com olhos baços
Chora pelo coração que, sem proveito,
Deixou pela Terra, pelos seus versos,
As treze letras que juntou dentro do peito...

segunda-feira, 10 de julho de 2017


XXIX


'Stava Vénus, deusa-amor, assentada
Os seus longos cabelos penteando
Cor de mel, cor do Sol e lume brando
Na sua pele branca aveludada.

Brincando perto da mãe delicada
'Stava Eros suas setas afiando
E Vénus, terna e doce, o afagando,
Dá-lhe um beijo na bochecha rosada.

Nisto belo mancebo se aproxima
E Eros, à pobre mãe que tanto o estima,
Fere-lhe o coração quase de morte:

"Nunca" geme "qu'reis d'Eros ser senhores
Pois vêde como a deusa dos Amores
Tem p'ra seu coração tão pouca sorte!..."


sexta-feira, 9 de junho de 2017


XXI

Sentada em seu trono de estrelas, sonho,
Uma Lua branca, cheia, assim pensa:
"Não há ser vivo que tenha indif'rença
À minha beleza, assim o suponho..."

'Sperou a noite; já o Sol risonho
Se estendeu c'o dia (é de outra pertença)
E, satisfazendo a sua querença,
Debruça-se a Lua no mar medonho:

"Mas quem é esta que vive no mar
Mais bela que eu, tão curva, invulgar?"
E, virando o rosto, ficou sisuda;

E; noite após noite, de inveja e mágoa
Não entendeu que o que vira na água
Era o seu rosto que c'o tempo muda

domingo, 7 de maio de 2017

De ti...


De ti não quero as tuas posses
Pois isso quer dizer que morreste;
De ti não quero palavras ternas
Pois isso quer dizer que precisas de te justificar;
De ti não quero que me digas que o que sentes por mim é do tamanho do Mundo
Pois isso quer dizer que é algo tão pequeno que pode ser medido;
De ti não quero juras nem promessas
Pois isso quer dizer que não estás seguro do que queres;
De ti não quero a tua caridade
Pois isso quer dizer que tens pena de mim;
De ti não quero grandes expectativas
Pois isso quer dizer que amas uma imagem;
De ti não quero as tuas orações
Pois isso quer dizer que estou tão mal que nem me podes ajudar;
De ti não quero que olhes para o lado para veres se te acompanho
Pois vou em frente contigo mas não confias em mim;
De ti não quero que julgues que sou fria por te dizer tudo isto
Pois isso quer dizer que não me conheces...

Assim, senta-te comigo num barco de madeira
E não me olhes, ou julgues, ou toques
Nem fales, que a palavra limita a linguagem
E viajemos assim no barco da vida
Esperando que o nosso rio chegue à foz
Navegando sempre na direcção do Sol
E olha simplesmente para a frente comigo
E quando se soltar a última tábua
E se tiver perdido o último remo
Sejamos capazes de repousar por fim
E consigamos ainda sorrir às memórias
E nessa altura, meu irmão, eu serei feliz
Por ter ouvido, um dia, o teu silêncio...

segunda-feira, 17 de abril de 2017

O Rapaz que era uma Pedra


Pedro não era um rapaz normal
De membro algum não tinha sinais
Pedro era feito de pedra e cal
E seus olhos eram só dois minerais.

Mas Pedro ao nascer não era assim
Tinha carne e olhos, pestanas e tudo
Mas foi ao crescer que ficou por fim
Tornado em rocha, imóvel e mudo.

Os pais, aflitos, tudo investigaram
Pela cura estiveram atentos, à espera
De médicos, peritos, tudo procuraram
E só um soube descobrir o que era:




E que se o tratassem com brusquidão
Ou se por acaso alguém o magoava
Em vez de se transformar o coração
Era o corpo que em pedra se tornava.

Foi lentamente que tudo começou
Osso por osso, até nada restar
E no fim só a pedra Pedro ficou
Com coração puro e amor p'ra dar.

Os pais discutiram,choraram, pensaram,
Suportaram o Pedro até não poder mais
E tempos depois a sentença decretaram
E deixaram a pedra com outras iguais:




Ele era-lhes um peso... era literalmente...
E nunca poderia falar ou sequer abraçar
E nisto esqueceram irresponsavelmente
Que até em silêncio é possível amar.

Passam dias, passam meses, passam anos
E o Pedro conheceu Sol, a chuva e o vento
E em noites de estrelas enchia-se de enganos
E sonhava uma vida com calor e alento.

Até que um dia (quanto tempo já iria?)
Alguém levantou o Pedro do chão
Pois naquele ermo se construiria
Uma casa habitável p'ra dias de Verão.




O Pedro é então lavado e pousado
Junto com pedras que ali estavam
No fim foi todo polido, cimentado:
Seria parede para os que ali habitavam.

Veio toda a família, pai mãe e irmão
E a filha engraçada que por lá já entrara
E dentro do Pedro alegrou-se o coração:
Tinha a família que sempre desejara.







E dia após dia, de coração em chama
Abençoa os seus membros, todos um por um
Sabe os seus segredos, murmurados na cama
Quando mais ninguém parece estar a ouvir
E mesmo não podendo falar ou sorrir
Fá-lo em seus sonhos como irmão que os ama
E ainda hoje, em noites de enganos
Quando as estrelas brilham mais que o Sol
Que é algo só possível em sonhos, magia,
Apesar de se saber pedra, cimento e aço
Ainda pede o seu maior desejo
                                                 - Um abraço,
Pois ninguém abraça uma parede fria...


sábado, 1 de abril de 2017

Era uma vez


Era uma vez, há muito tempo atrás
Num tempo ou contratempo já perdido
Uma torre sem janelas ou escadas
Um caminho que se corre sem sentido
Uma luz perdida no céu nocturno
Uma terra sem plantas e sem cor
Uma voz que ecoa nas montanhas
Uma fonte onde a saudade bebe a dor.

Era uma vez, há muito tempo atrás
Sob um Sol cuja luz é já sem vida
Um campo em cuja terra houve flores
Que enterram a ausência já perdida
Há dois cães desbravando os caminhos
Encobertos por mantos de sal e fel
Há duas luas já sem boca e sem olhos
E cujas vozes soam a leite e mel.

Há dois sapatos rotos e já gastos
Fartos de engolir o pó da terra
Há dois vestidos escondidos na gaveta
Que são as vestes da paz e irmã guerra
Há dois corpos que se encostam num sussurro
Perdidos na pedra dura da calçada
Há duas lágrimas pela noite fugitivas
Recolhidas pela boca abandonada.


Era uma vez, há muito tempo atrás,
Dois sonhos que já partiram e voltaram
Há duas pedras encobertas pelo vento
Que de rocha para água se tornaram
Há duas mãos revestidas de veludo
Enlaçadas pela noite que perece
É a dama coberta de noite e estrelas
Abraçada ao valete que a adormece.

Era uma vez, há muito tempo atrás,
Duas sombras na penumbra que se esfuma
E que findo o Sol, chegada a Lua,
Eu as vi e julguei serem só uma
Há dois copos de licor sobre uma mesa
Que Esperança e Ansiedade abandonaram
Ao ver, cobertos pelo quente Estio,
Dois lábios que, por amor, pecaram.

Há quatro valsas de saias brancas que
Por estrelas de quatro cores são veladas
Há quatro palavras surdas não ditas
Enterradas na poeira das estradas
Há quatro braços no céu perdidos
Rasgando os véus de luz e treva
Dois que levam corpos de Lua e Sol
Outros dois envolvendo quem os leva.


"Era uma vez" é sonho azul, errante
É ser-se erróneo na vontade, triste fado
É a areia de tempos já perdidos
É água fria e doce, vidro pintado
É pleonasmo de esperar pela esperança
Que o céu azul prometeu um dia
É enterrarmos nossa alma fria e crua
Num coração quente que batia;

É prometermos, vãos, a nossa vida
À vida pela qual, em vão, morremos
É história infinda, feita, forçada
Que escolhemos como nossa porque qu'remos
É criamos nossas folhas e raízes
De árvores altas, mil, fazer altares
É afogarmos nosso sopro noutro sopro
É na terra amargurada vencer mares.

Nesses tempos que se lembram e não voltam
Dos quais não há voz ou céu que conte
Eu recolho as estrelas que se soltam
E delas faço grinaldas a jeito
De cobrir, à meia-noite, a tua fronte
E perdendo os meus sonhos no horizonte
Lembrando-me, dormente, no teu peito
Nas tramas sem lei que a vida faz
Escuto o teu coração que eu suponho
Ainda contar ao meu, como num sonho
Era uma vez... há muito tempo atrás...







quarta-feira, 22 de março de 2017

Elogio da Música


XVIII 

Fazer música é pintar, cantar c'os dedos
É um Sol que brilha à noite sem cessar
É veneno que consome sem matar
É ver a Deus por entre vento e arvoredos...

Fazer música é passar, escalar rochedos
Procurando a perfeição, que é nosso lar
É num campo seco e árido ver o mar
É saber da alma humana os seus segredos...

É por trás deixar a guerra e a paz em frente
Fazer música é crescermos lentamente
Na procura incessante da Verdade;

É a crença em amar eternamente
É seguirmos nossa vida cegamente
Pela grave e forte voz da Liberdade!


sábado, 4 de março de 2017

Eco


Encostado a colunas dóricas de mármore frio
Estendo os braços ao céu e canto:
"Brancas nuvens, céu azul, sol dourado
Diz-me novas dos olhos daquela que os tem verdes
E que uma vez dada a vida não tira!"
E das nuvens brancas uma voz diz:
         "tira"...

Passeando por entre bosques densos e florestas
Abraço uma árvore com força e murmuro
"Florestas escuras e copas negras
Dizei-me se vistes aquela a quem aos cabelos destes cor
Que encontrei ao acaso e que jamais foge!"
E dos ramos das árvores uma voz diz:
        "foge"...

Caminhando por prados e campos floridos
Aprecio as flores e digo
"Brancas flores, mãe Natureza,
Dizei-me se acaso passou uma filha vossa
Aquela que me tem e que jamais me abandona!"
E de uma flor uma voz disse:
        "abandona"...

Seguindo sem parar o curso de um rio
Olho o horizonte e brado
"Aos seres que habitam as águas, a terra e o céu,
Dizei-me se está um ser que dá pelo nome Eliane
Aquela a quem às nuvens cantei Eliane
Aquela a quem às árvores murmurei Eliane
Aquela a quem às flores chamei Eliane
Que me deu a vida e que jamais morre!"
E do nada uma voz disse
       "morre"...

Eco lança um suspiro...


quarta-feira, 1 de março de 2017

Enigma



Abre uma rosa na neve branca e pura
Envolta em cristais; o vento frio ruge
E adivinhando o destino p'ra que surge
Acorda e remete em rubra doçura
Que a é pelos espinhos, pelo perfume
Desta rosa na neve branca aberta...
O vento ruge e então desperta
A própria luz do Sol que assume
Num raio apesar de apaixonado:
"De tão esquivos olhos não moura e pereça
E embora o coração sofra e sem proveito
Teima em escrever no mármore abandonado
As treze letras que juntou dentro do peito..."

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Thalatta

Lá, onde a morna brisa aquece
A minha terra, à beira-mar
Alheado e sem pensar
Vejo o Sol que adormece...
Lá, onde a brisa aquece
Barcos vejo a navegar...

Ondulando as ondas de ontem
No amanhã que virá
Sonha hoje (quem saberá?)
Pelas amarras que se soltem
Ondeando as ondas de ontem
(Há quanto tempo estará?)...

Vejo dormir os veleiros
Lentos, pondo-se a sonhar
Por quem os vá navegar,
Do seu sono prisioneiros;
Vejo dormir os veleiros
Na minha terra, à beira-mar...



E uma onda vai, uma onda vem
Vai o pensar, vem a lembrança
Vai a saudade, vem a esperança
Vão os meus olhos por ninguém
E uma onda vai, uma onda vem
E a longa praia não descansa...

(Na proa do meu navio
Usando o mar como estrada
E levando em riste a espada
Olho o areal vazio
Na proa do meu navio
Ao raiar a madrugada...

Com um rápido movimento
De minha espada, arma mortal,
Espero o dar do sinal
E com a força do vento
Com um rápido movimento
Parto a barreira de cristal...

Mas o céu esmoreceu
Com o feito que eu fiz.
E, não podendo de feliz,
Canto para o areal que é meu
Mas o céu esmoreceu
E o vento ouve e nada diz:

"Abram portas, sou chegado!
Abri-vos de par em par!
Depois de muito lutar
O cristal está quebrado!
Abram portas, sou chegado!
Cheguei e venci o Mar!"

As portas fecham; foi em vão
Não me querem receber
Vejo o Sol se esconder:
Deixam-me na solidão
As portas fecham; foi em vão
O que eu estive a combater.)

Estas e outras coisas sonho
Vendo o que o mar revela
Sonho a minha caravela
Navegante me suponho
Estas e outras coisas sonho
Quando estou à janela...

São minhas as ondas que teço
No meu reino de fim do mundo
Quando eu, por um segundo
Outra vida não conheço
São minhas as ondas que teço
E é minh'alma um mar profundo...

(Sei que algures, na alvorada
Está a rainha saudosa
Está Anfitrite, portentosa,
Nas suas ondas deitada
Sei que algures na alvorada
Está terra mais formosa;

Sei que já fui rei um dia!
Sei que já dancei com fadas
Tive tristezas fadadas
Que por algo eu morria
Sei que já fui rei um dia
Numas terras encantadas...)

... Lá, onde a morna brisa aquece...
... Ondulando as ondas de ontem...
... Vejo dormir os veleiros...
... E uma onda vai, uma onda vem...
... Mas o céu esmoreceu...
... As portas fecham; foi em vão...
... Vejo o Sol se esconder...
... Estas e outras coisas sonho...
... São minhas as ondas que teço...
... Sei que já fui rei um dia!...







Lá, onde a morna brisa aquece
Em meu país sossegado
O Sol se encontra deitado
Quando, no fim, anoitece
Lá, onde a morna brisa aquece
E, ouvindo o vento cantar,
Abrem-se portas de par em par
A minh'alma adormece
É um veleiro a navegar
Num mundo que desconhece
A própria terra se esquece
E nada existe...
                                   - só o Mar...