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sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Cançoneta

São verdes os rios que levam
Saudades do meu amor
E nos barcos que se entregam
Aos amantes que navegam
Sem saber rei ou senhor,

O meu amor parte, parte
Parte sempre a navegar
Foi p’rá liça guerrear
Foi servir com sua arte
Lá nas terras d’além mar
Leva os sonhos por ‘standarte
- Quem sabe se há-de voltar?

São azuis os céus que guardam
Os olhos do meu caro bem
E nas ondas que sossegam
Os corações que lhe entregam
Dos que ficam sem ninguém,

O meu amor canta, canta,
Canta sempre a navegar
Os sinos que ouviu tocar
Lá na terra que lhe encanta
Das montanhas por sagrar
Onde o sol se alevanta
- Quem sabe se há-de chegar?

(São negros os montes que velam
As almas apaixonadas
São altos espinhos que zelam
E no coração revelam
Leves penas, vis espadas)

São verdes os rios que levam
Saudades de quem me levou
Nas amarras que se entregam
Daqueles que então navegam
E não sabendo por onde vou

O meu amor sonha, sonha
Sonha em mim no alto mar
Traz nas mãos ao abandono
O meu coração sem dono
E a testa por singrar
E levando por ‘standarte
Aquela que deu por trono
O engenho, zelo e arte
A quem a não soube ver
Quem sabe se há-de voltar,
Quem sabe se há-de sofrer,
Quem sabe se há-de morrer,
Quem sabe se há-de acordar?


quarta-feira, 26 de julho de 2017

Apoteose do Poeta I



Lembro-me como se tivesse sido ontem...

Era de tarde quando uma voz se ouviu:
"Eis o poeta que sobe a montanha!"

O céu era azul; o Sol era ameno
E o poeta, mudo e quedo como as flores,
Escondia pela flauta suas dores
E cantava, em voz sumida, ao céu sereno:






"Abre uma rosa na neve branca e pura
Envolta em cristais; o vento frio ruge
E adivinhando o destino para que surge
Acorda e remete em rubra doçura
Que a é pelos espinhos, pelo perfume
Desta rosa na neve branca aberta...
Que, de rubra cor, então desperta
A própria luz do Sol que assume
Num raio apesar de apaixonado:
'De tão esquivos olhos não moura e pereça
E embora o coração sofra e sem proveito
Teima em escrever no mármore abandonado
As treze letras que juntou dentro do peito...' "






Cantam os rios, as cigarras, os grilos
Ao longe, um pássaro pia
E um cão, alegre, corria
Atrás de um pato que, em susto, grasnava.
O vento dança com as árvores
E o poeta puxa de uma pedra
Dura e fria como o gelo, mas
Que para ele era uma nuvem branca e leve
E na qual deita a sua cabeça de borboleta;
Fecham-se os olhos, abrem-se os sonhos
E o poeta já não dorme: voa
E com ele as suas flores, a sua flauta, as suas nuvens
Anjos levam-no envolto em braços
E sentam-no numa cadeira de ouro
Na qual o poeta, com olhos baços
Chora pelo coração que, sem proveito,
Deixou pela Terra, pelos seus versos,
As treze letras que juntou dentro do peito...

terça-feira, 4 de julho de 2017

Soneto Alexandrino

XXVII

Não guardes mais, meu amor, minh'alma triste
Não guardes mais, nem a cuides, nem dês alento
Que em almas que se habituam ao sofrimento,
Por mais que o evitem, ele persiste...

Tentando curar meu espírito, mo partiste
Ou sou eu que não sei viver sem um lamento;
Vai então, leva os meus beijos em testamento
E esquece os meus olhos mais o que neles viste...

Meu coração é uma rosa macerada
Que desfolho no meu espírito e no meu peito
A troco de sonhos vãos e de quase nada;

E é só criando devaneios, universos,
Que 'inda encontro, de meu modo tão contrafeito,
Consolo nas lágrimas claras dos meus versos...

segunda-feira, 22 de maio de 2017

O Número da Fortuna

Juro que sempre quis falar de ti, falar de amor...
Sonhei com que sonhassem o que eu sonhei
E não julguei difícil até ser o sofredor
E não pensei lembrar até hoje o que eu amei...

Pudera eu esquecer o que é sofrer, o que é amar
Sentir que mais não fosse que meu qu'rer
Andar p'lo sentir como alguém que não quer ver
E ter como caminho nada mais que bem-estar
Sem louvar o vil amor como algo que sofrer...

(Basta de vãos sonhos, vãs promessas, más palavras
Basta de querer aceitar uma Fortuna
Carente de afecto, que por isso una
Toda a vil lembrança de tomar acções erradas
Pelo tear de letras, cada verso avança uma
E cuidar que almas não ficam magoadas...)

Menelau perdeu Helena e assim perdeste
Simplesmente por querer fechar do céu
A água da fonte dos enamorados
A água dos que assim estão destinados
A viver pelo fastio, que da lembrança
Pelas veladas águas são tocados...

... Essas águas levaram uma letra e Fortuna já não é...


sexta-feira, 21 de abril de 2017

A Rapariga de Metal


Numa casa à beira-mar
Numa praia prateada
Viveu um grande inventor
Com a sua esposa amada.

Eram felizes (como não?)
Amavam-se co'amor profundo
E sabiam vencer juntos
As maiores penas do mundo.

Contudo algo faltava
Não se sabia o que seria
Mas a esposa disse "Um filho
Nos trará mais alegria!"

"Uma menina!" concordaram
Esse desejo assim ficou
E nem um ano passara
E o dia feliz chegou.



O inventor, tão inquieto,
Bem esperava de olhos baços
Pela menina adorada
Que iria ter nos braços.

Mas a Sorte e o Destino
Algo tinham planeado
E se uma moça nascera
Outra cumpriu triste fado.

Eram duas, lho disseram
Gémeas, mas ninguém previra
E se uma nasceu saudável
Outra mais frágil morrera.

E o inventor derrotado
Olhou o céu com rosto langue:
Tudo pudera inventar
Menos p'ra salvar seu sangue!



Pensou então remediar
E por fim o coração
Lhe disse aquela que era
A possível solução

E alguns meses passados
Numa manhã de Primavera
Apresentou à sua esposa
A nova filha que fizera.

Passaria por humana
Em tudo à outra era igual
Mas em verdade era máquina
Apenas feita de metal.

E ainda assim algo faltava
Que se não pôde fazer
No seu peito não havia
Um coração a bater.



Os anos foram passando
A filha real crescia
Já à outra, o pobre pai
Só peças substituía

E perguntava a sua irmã
(Que decerto o saberia)
Como era ter então
Um coração que batia.

"É duro ter um coração
Com as suas dores e penas
Por tudo se sofre em vão
Das coisas grandes às pequenas.

Preferia não o ter
Se assim queres que to diga
Não ter amor como algemas
Nem a dor como amiga..."


A outra só acreditava
Não podia dizer que não
Mas 'inda assim, em seu íntimo,
Desejava um coração.

Ora um dia belo mancebo
Chegou à casa à beira-mar
Era andarilho e precisava
De casa p'ra descansar.

Era esperto, belo e tinha
Tantas histórias para contar!
E por ele a jovem moça
Logo se foi enamorar,

A de carne, pois claro
Essa é que podia amar
Algo que a irmã de lata
Nem sabia imaginar.

Trocaram mil juras d'amor
E mil mundos por explorar
E logo então se decidiu
Que iriam os dois casar.

Foi numa manhã de Inverno
O dia estava sereno
E a brisa vinda do mar
Dava-lhe um tom ameno.

Sentada junto a uma rocha
A noiva então esperava
Com a sua irmã de lata
Que sua mão segurava.

Nisto um homem esbaforido
Apareceu a correr:
O noivo não estava em casa
Acabara de desaparecer:

Descobrir em tarda hora
Que mais queria viajar
E uma jovem mulher
Só iria atrapalhar.

A pobre noiva estremeceu
Sentiu-se como a desmaiar
E agarrou-se ao coração
Que ameaçava parar;


Já o sabia, questão de tempo
P'ra quem tem tal condição
A de ter no peito fraco
Um malfadado coração!

Com o tempo que lhe restava
Disse à irmã de metal:
"Um desejo a pedir-te
Tenho agora no final

Abre este meu peito fraco
E tira-lhe o instrumento
Máquina que eu nunca quis
Origem do meu tormento

Não te acanhes, tu o queres
Não tenhas pena, sorri:
Se o tiveres no teu peito
Viverei p'ra sempre em ti..."


A jovem 'inda hesitou
Pareceu-lhe tão errado!
Mas de um golpe arrancou
O coração quase parado

E no seu peito de metal
Abriu um espaço vazio
E onde pôs o coração
Nunca mais julgou ter frio.


Mas o que era aquilo?...

Que marés de sentimentos estranhos voavam no seu peito?
Que era aquilo que lhe deixava o espírito insatisfeito?
Eram seus agora sentimentos que o não eram
E, na alma que não sabia ter,
Um turbilhão de traças esvoaçantes
Finas como punhais
O seu corpo de meta pareciam corroer.
E a jovem rapariga-máquina
No areal à beira-mar
Sentiu que uma água nova lhe lavava o rosto
Água que sabia a mar
Água que julgou vir do mar
Mas que em verdade vinha de dentro do peito
"Poderei estar a chorar?" E estacou
Suspensa num momento de silêncio...
As vagas junto à casa traziam verdes ondas
Verdes praias, verdes olhos, verdes anos
E, soltando os cabelos ao vento
Um sorriso ténue rasgando o rosto 
E dançando feliz no areal de prata
Acariciou o coração de carne e cantando
Olhou bem alto, para os céus
Para bem longe, onde a irmã pudesse ouvir:
"Minha irmã", começou, "estavas enganada
Nada é como disseste
Hoje o mar traz-me saudades de coisas que não tenho
Não são histórias, minha irmã, são segredos
Das estrelas que contámos junto ao cais
Hoje encontro na areia a matéria de mil sonhos
E a brisa canta uma melodia que só no peito posso ouvir.
Ouço-a agora
Posso ouvi-la claramente
E antes uma vida sofrida
Por tormentos conduzida
Pela tristeza anunciada
Escarnecida, mal-amada
E pelo cru amor guiada
Que a bênção de mil séculos sem uma lágrima
                                   - uma lágrima apenas -
Que purgue a alma magoada!..."




quarta-feira, 1 de março de 2017

Enigma



Abre uma rosa na neve branca e pura
Envolta em cristais; o vento frio ruge
E adivinhando o destino p'ra que surge
Acorda e remete em rubra doçura
Que a é pelos espinhos, pelo perfume
Desta rosa na neve branca aberta...
O vento ruge e então desperta
A própria luz do Sol que assume
Num raio apesar de apaixonado:
"De tão esquivos olhos não moura e pereça
E embora o coração sofra e sem proveito
Teima em escrever no mármore abandonado
As treze letras que juntou dentro do peito..."

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

XII

Tirana, de coração avarento,
Que me manténs em prisão feia e triste
Por que é que para ti alegria existe
Em criar nas almas fracas sofrimento?

Tirana que, no momento primeiro,
O meu cárcere, espreitando, sorriste,
Conserta esta vida que partiste,
Deixa de me querer teu prisioneiro!

Abriste-me a cela com som ruidoso
No fim pude ver um Sol luminoso
E vi-me enfim livre da austera prisão!

Mas de que valeu, então, se em verdade
Mesmo que o corpo cante liberdade,
A ti estão presos minh'alma e coração?

sábado, 7 de janeiro de 2017


X

Soprava trémulo e mortal o vento
No dia que te roubou, secreto, a vida
Que, no final, já estava dorida
P'lo tempo que passara tal tormento...

Com a alma de passado turbulento
E, no fim, vendo a Morte apercebida
Ainda fitaste com expressão ferida
A gélida face do Sofrimento...

(Sai a alma de um corpo mutilado
Estanca o sangue no coração parado
Cansado de bater p'lo seu fadário.)

Perdoa-me! Por fraco me ter tornado
Por no fim não te ter acompanhado
Pelo duro suplício do Calvário!...

domingo, 1 de janeiro de 2017

VIII


Por cada mal da vida uma ventura
Que o Destino a cada um tem reservada
Mas a primeira a mim está destinada
Mais suas penas de tristeza e de tortura!..

Se p'ra mim restam penas, amargura,
Vejo cada outra sorte ser tomada
Não por mim, de existência magoada,
Mas p'lo alheio, que sempre bem figura,

Tenho saudades do tempo em que sorria
Daquele do qual tenho em lembrança
Venturas, boa sorte e alegria:

Ah, quem dera voltar a esse dia
Essa vida de bem-qu'rer e de Esperança
Dos dias de ventura em que te via!...

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016


VII

Verdes campos, longos rios, prados floridos
Que em uma tarde amena o Sol dourou
Bem como as lembranças que o longo rio levou
Mais os sonhos que reguei em tempos idos...

Por entre cantares, pássaros adormecidos
O luzir do Sol meu coração curou
Da ausência e da saudade por quem chorou
Em dias remotos, em lugares perdidos...

E, apesar de luzir no céu o Sol brilhante
Sinto assomar em mim a cada instante
Um coração ferido e sempre triste!...

Tivesse eu podido travar tal tormento!
Que o mesmo Sol me tivesse dado alento
No dia em que de meus olhos te partiste!...

terça-feira, 20 de dezembro de 2016


V

Prostrado em largas horas descontente
Em tempos, contratempos e outros tais
Mantive-me fiel àquela gente
Que se sabe feita de areias e metais...

Naquela de que existe certamente
(Incessante na busca de sinais
E 'sperando-os em vão ardentemente)
Uma vida de flores e de corais

Mantive-me iludido; pensei ser certo
Firo-me de morte, então liberto
O meu pesado e frio coração!

Olho langue o céu, é tudo incerto
Jorra o sangue negro do peito aberto
O resto é discórdia... e solidão...

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016


IV

No meio do plaino abandonado
Em urros deitei contas à vida
Às tantas chorei, já tinha dorida
A voz, rouca de tanto ter gritado.

Nisto encoberta, clara e difusa
Ouço uma voz do céu que se abria
E vi uma imagem que então descia
E que em altos berros me grita e acusa:

"Desgraçado poeta, por que choras?
Mas não entendes que é esse viver
Que te atraiçoa e te faz sofrer?

Acorda, poeta, por que te demoras?
Muda então, tenta perceber;
Podes ser feliz, é só querer."

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016


II

"As Alcióneas aves tristes canto"
Assim cantou o Poeta um dia
E eu cuidei que era fantesia
Quando o mesmo sofria entretanto...

Meu coração pena tanto, tanto!...
Cada vez mais perco minha alegria!...
Ignorantemente eu não entendia
O motivo que levava a tal pranto...

Levantam-se os templos da grega Corinto
Acorda em Pompeia um vulcão extinto
Mas meu coração, de arder, já sofria...

Ah, quem dera não sentir o que sinto!
Ter o meu espírito desfeito, faminto,
P'la liberdade que perdi um dia!...

domingo, 16 de outubro de 2016

És




És uma uma névoa de cinza que
Em cada vez se aproximando
Mais me mata e sufoca
Sem que no entanto eu creia
Essa morte penosa...