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sábado, 2 de dezembro de 2017

Codetta

Giro o mundo nas pontas dos meus dedos
A esfera-terra medra e flore
Na palma da minha mão;

Contei-te pena a pena, desfolhando
- Julguei voar ao vento… e até quando? -
Os teus olhos de flor no coração…

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Flor de Sal

Na trova nos céus velada
Em ondas que a voz enlaça
Vi minha pátria ancorada
Nas calhas da noite que passa.

Vi minha pátria perdida
Nas brumas da manhã fria
Erguendo na sombra aguerrida
Os mastros da nau que se abria.

Numa tarde em voz dourada
A rebate em tristes floras
Vi minha pátria finada
No tardo sino das horas.

Vi minha pátria florir
Nas mãos da Rainha Santa
Tendo por seu o porvir
Cego que o mastro alevanta.

Minha pátria, a que aventuro
Tristes trovas que lhe dou
Chora, por um velo escuro,
O olho que o mar lhe levou.

Levou por o ter chorado
Na canção ao desatino.
Vi meu país afogado.
Pelo troco de ouro fino.

Mais eu vi no veio claro
D’água sua que bebeu
Duas ‘spadas sem amparo
Junto ao braço que as perdeu.

E mais vira se não fora
(Escudo meu que não terei!)
A armadura sonhadora
Em que meus olhos fechei.

Na trova no céu velada
Ondas que já não se enlaça
A minha pátria ancorada
Já não parte, já não passa.
Já não ‘screve em versos seus
As sereias na água escassa
Nem as vozes que em adeus
Bem contra preceitos seus
Viram partir em desgraça.
Mas dos vales vis e fundos
Que, nas trevas, a compasso,
Luzem no oceano baço
Velhas eras, novos mundos,
Surge a flor plantada à proa
Daqueles que ainda a esperam…
E nas sombras que revelam
A alta voz que doce ecoa
Em que o sonho sobrevoa
O mar na palma da mão
Vai vagando em si cativa
Relembrando em voz missiva
Aos que esperam sem razão:
Não se perderá quem viva
Com o sal no coração!...


domingo, 15 de outubro de 2017

Abril

No plaino que a sul norteia
Na madrugada que raia
Plantei um grão de areia
Nasceram dunas na praia.

No plaino que a aurora singra
Do cantar de uma cigarra
Plantei nele uma lágrima
Nasceu-lhe a voz na guitarra.

No plaino de rosto altaneiro
Vontade mais alta ecoa
Plantei no fado um veleiro
Nasceu-lhe o mundo na proa.

Nasceu-lhe o mundo na proa
Nasceu-lhe a brisa que exala
Azul é o céu que abençoa
E verde o mar que assinala.

É verde o mar que assinala
Rubro o coração desfeito
Plantaram nele uma bala
Nasceu-lhe um cravo no peito.


domingo, 6 de agosto de 2017

Apoteose do Poeta II



Foi pelo anoitecer que um murmúrio se ouviu:
"Numa pedra dura e fria o poeta sonha!"

O poeta nada em estrelas cor de prata
Pelo vácuo escuro dos sonhos
E uma maior, dourada e em chamas
Rasga os céus da cor vermelha viva
Pelo vácuo escuro dos sonhos
Lá, no mar de estrelas cor de prata...




Rasga-se o horizonte; o poeta em calma
Separa o céu e a terra, as nuvens e o mar
Não se ovem rios, grilos a cantar
Só nas profundezas da sua alma.
E o poeta olha um céu de árvores e flores
De areias e tempos, verdes e negros.
E o poeta olha um mar de estrelas e nuvens
Baixa-se e, com as suas mãos, colhe uma flor-estrela
Um pedaço de céu, um pedaço de mar
Um pedaço de fora, um pedaço de si...

Numa estrela que brilha o poeta sentou-se
E, no horizonte branco, emerge uma luz
Tão ou mais clara que a prata
Ou mais quente que o fogo.
O poeta fecha os olhos, a luz é forte
Ventos arrastam-no, o poeta escorrega
E a pobre alma, de nascimento sem sorte
A uma parede de gelo, em vão, se apega
Desce por um buraco sem fundo, o desgraçado
E a luz, cada vez mais longe, quase se some
E a escuridão vencedora aos poucos consome
O seu corpo que ficou, de lutar, cansado
E nesse cair, nesse purgatório, no abismo
Uma voz sobe desse poço sem fundo:
"Tenho-te guardado para meus furores
E neste punir aos Homens ensino
Este meu castigo, que é o destino
Dos que desvendam os segredos do Mundo!..."