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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

XXXIX

Flor dos tardos dias, vem dolente
Trazendo nos teus olhos, caro bem
Dois círios, um por ti e outro por quem
Te pedirá que o veles tristemente.

Derrama as tuas pétalas somente
Na lousa que me cobre e me sustém.
É tão mais doce a vida quando além
Se morre e tem quem chore eternamente!...

Vai, deixa-me cantar ao desafio
Deitado em meu sepulcro branco e frio
Como se fora Amor quem dera o mando

E reza, s'rena flor, reza esquecida
Que os teus doces lamentos me são vida
Enquanto morto em mim te vou sonhando...


segunda-feira, 28 de agosto de 2017

XXXII

Só, vejo-te deitada, meu amor
Com os teus cabelo ruivos ao vento
No regaço, em profundo desalento,
Vai murchando lentamente uma flor.

Contudo a vida é breve e sem pudor
Te extinguirá, ninguém lhe está isento,
Como essa flor que outrora, num momento,
Colheste viçosa e que não tem cor...

Mártir breve da sorte e do Destino
Não és mais que um choroso violino
E que se irá perder em bruma fria;

E é só com a lembrança abandonada
Que p'ra sempre te encontrarei deitada
Tão clara e pura como a luz do dia...


sexta-feira, 18 de agosto de 2017

As Portas da Montanha


Vem, meu irmão que te aproximas,
Segue o teu caminho, escuta a minha voz
Aquela que ouves, perdida, no nevoeiro cinzento
Aceita o meu convite e descansa os teus pés cansados da viagem
E a ti te dou a minha bênção:
Comigo tenho a chave das portas da montanha
Leva-a e entra, mas quando abrires as portas
Marca o teu rosto como chave para a visita
E imagina seres um cântaro vazio
De que os deuses se esqueceram, abandonado à sua triste sorte
E nessa altura eu seguirei contigo
A minha voz na tua cabeça
E a montanha no teu coração…

Vem!
Vem que eu ensino-te a fazer navios de cascas de nozes
E o deleite de neles ensinares os teus sonhos a navegar
Ensino-te a atravessar os caminhos sem deixares pegadas que sejam tuas
E a magia de sentires uma estrela brilhante dentro do peito
E todo tu te abrires em flor…
Por entre a escuridão das terras revoltadas descobrirás o calor do Inferno
Mas que as suas chamas são a vida para o Paraíso que transporta
Onde o verdadeiro diabo não é mais que um artífice
Que amassa a argila que os deuses criaram…

Podes pertencer aos homens e alguns homens pertencerem-te a ti
Podes guiar mil seres e outros tantos beijarem-te os pés
Podes deitar as mãos ao barro e dele fazer maravilhas
Que, no fim, quem te seguirá com fé inquebrantável?
O que sobreviverá ao tempo imperdoável?
Quem te amará tanto como a si mesmo?
Apenas as montanhas continuarão a erguer os seus pináculos de catedrais
Apenas os campos darão o seu regaço ao luar
Apenas os sinos do alvorecer ecoarão no horizonte
E no meio da maior das tempestades só as árvores se manterão
Como mastros de um barco que enfrenta a mais cruel das ondas
O maior dos vulcões criará o mais belo dos diamantes
A terra rebentará, os penedos cederão
E os rios e as lagoas assomarão com o seu exército de cristal
E apenas eles estarão lá para te matar a sede…

Vem e ouve!
Vem e escuta o som do sangue das montanhas nos regatos que desfazem a terra!
Vem e curva-te diante dos rochedos, os anciães da montanha!
Vem e vibra quando ouvires, ao longe, as trombetas proféticas das avalanches
E treme com o gelo que estala como o ribombar de um trovão!
O meu rosto ostenta as rugas de mil Outonos
Mas a minha alma canta como uma andorinha na Primavera;
A minha pele está queimada com as marcas de mil Invernos
Mas o meu coração arde e inflama-se num Verão eterno!


Mas não chores, meu irmão, não chores mais
Descansa as tuas rugas, a tua alma, a tua pele e o teu coração
Também o céu precisa de chorar para te trazer as flores na Primavera
Deita as tuas lágrimas ao vento, semeia-te e cultiva-te:
Que o teu coração não conheça mais senão flores
Que as tuas mãos não colham mais senão flores
E ensinem os outros a plantar flores
Que a tua boca não profira mais senão palavras perfumadas
Que a chuva seja o teu baptismo de todos os dias
E que o Sol quente no teu rosto seja o último beijo que levas desta vida…

(Quando a minha alma atravessar o rio despojar-me-ei de tudo
Não me importarei de deixar tudo
Mas rogarei a Deus no seu trono de estrelas que tenha piedade de mim
E que me deixe levar comigo como último bem desta vida um pedaço de terra
Um pequeno e simples pedaço de terra
Para levar comigo a recordação dos montes e dos vales perdidos…)

Quando saíres guarda a chave
Fecha as portas da montanha, limpa o rosto e ajoelha-te só contigo
Sente o vento pentear-te os cabelos com ternura
Planta as tuas mágoas para que se transformem em belas árvores viçosas
E aprende a força dos rochedos silenciosos
E, quando a montanha adormecer no nevoeiro cinzento,
Aproxima o teu rosto do seu rosto e, com um suspiro de amor,

Beija a mãe que te embalará na sepultura…


quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Memórias



É uma tarde de Inverno
Redundantemente uma tarde de mim
E, abrigado debaixo dos pinheiros nevados,
Descalço, que o frio nunca me incomodou,
As mãos já insensíveis ao calor do corpo
E a alma mais insensível ao do coração
Vou contando flocos de neve
Contando lentos flocos de neve
Que se afogam no mar de gelo…

Ao longe vejo a casa, aquela que em teoria é minha,
Deixou de o ser quando a minha avó partiu
O meu grave pai deve estar junto à lareira
A minha adorada irmã deve estar a chorar
E a minha mãe, consternada, chama-me;
Só eu é que estou debaixo dos pinheiros nevados
A cabeça dormente, o coração quase parado
E desejo cá ficar eternamente…





Mas eu estou em casa! A neve é a minha casa
O Inverno mais o frio que ele traz
A minha mãe adora o Verão e resmunga no Inverno
É dizer, resmunga comigo então também,
Porque eu não sei ser mais senão Inverno;
Calor nenhum do Verão me dará o conforto
Que o ópio que uma noite invernosa me traz
E é nestas alturas que eu me enterro na neve
Que eu me enterro até ao pescoço na neve
Esperando ser uma estátua de gelo
E ser finalmente uma vez mais parecido comigo…









Ouço ao longe, ergo a cabeça
Espreguiço um pouco a mente vazia
A mente cheia de branco e de nada
Branco de neve e nada como eu
E exclamo para mim que é desta que não volto
Que vou ficar aqui no meu reino de gelo
E dele fazer as minhas maravilhas;
A minha pele branca já é quase cinzenta
Cinzenta do frio e cinzenta dos pinheiros
Que sussurram por entre a folhagem…





Não vou!
Já disse que não vou!
Deixai-me ficar por entre os pinheiros cinzentos
E que eu me confunda com o cinzento dos pinheiros
Se às pessoas sou vil e mesquinho
Se lhes fiz conhecer a amargura de carácter (dizem elas)
Se lhes dou mais mal que bem
Deixai-me ficar entre os pinheiros cinzentos
Entre os nobres e graves pinheiros cinzentos
Pois se nunca a uma árvore ou a uma planta fiz o mal
Não se incomodarão se viver entre eles…

Deixai-me gelar!
Deixai-me fundir com a neve branca e ser uma estátua de gelo
Sempre sonhei poder ser uma estátua gelada
E adormecer por entre a neve e os pinheiros
E na chegada do quente Estio
Daria de beber às jovens flores.
Sou o Inverno e ninguém gosta do Inverno
E por isso desejo ser uma estátua de gelo
E sonho o dia em que alguém mais afoito
Pudesse chegar e dizer “este menino tem frio”
E em me abraçando me fizesse derreter e morrer a mais bela das mortes…


Oferecem-me doces…
Ah, os doces! A primeira moeda que conheci!
Que nostalgia, que lonjura por esses doces
Aqueles que me faziam esquecer que me troquei por doces
E que eram a resposta para todas as quezílias;
Manda-se e paga-se com doces
E assim se vão ensinando as gerações…
Mas olha, guarda os teus doces
Que eu preferia mil vezes mais um abraço que derretesse o gelo frio
Que a ainda mais fria política dos doces…

(Esta parte é devaneio, contudo;
Nunca lhes dei tal resposta nem ela o soube
E mesmo sabendo talvez não fizesse diferença nenhuma
Pois o mundo - o nosso - não pode funcionar sem moeda:
Mentir-me-ia se me conquistasse com um abraço e não doces…

… Ah… os doces…
Não foi por tantos doces que tive que me tornei menos amargo
Talvez não seja assim que se adoçam pessoas
Não sou uma peça de culinária…)


 


Mas sabem, ainda hoje me oferecem doces
Talvez não os mesmos, mas de outras maneiras
Ocultos num beijo, numa frase, num sorriso
Que na verdade mais não são que doces
Mentirosos doces e moedas para câmbio
E eu, que para além de caro ainda sou pobre
E não tenho moedas de natureza nenhuma
Por não saber mentir também nada compro
E ando por aí, de mãos nos bolsos, a fazer contas
Quanto vali hoje, de quanto perdi em não me ter vendido
De quanto será o valor no dia em que me vender
E até de quantas vezes me venderei
Que aguentar comigo, sei-o bem, não é tarefa de uma vida
E com isto no meu peito vai nevando
E sentado vou sonhado debaixo dos pinheiros cinzentos…





(Nos meus sonhos há uma grande casa branca
Uma solitária mas feliz casa branca
E, na entrada, de braços estendidos em flor,
Uma figura me convida e sorri
E eu, criança perdida nos pinheiros cinzentos,
Ergo-me e choro flocos de neve
E, por um momento, aceito os doces
Aceito o sorriso, aceito o abraço
E suspiro: até o Inverno gosta de se sentar à lareira de vez em quando
E talvez por isso seja tão frio, para que se lhe acendam várias lareiras…)

No final do seu tempo o Inverno diz:

- Vou morrer. Acordem-me quando chegar a Primavera…


segunda-feira, 7 de agosto de 2017

O Cemitério


No tempo em que eu era ainda jovem menino
E o homem grande dormia dentro de um corpo pequeno
Com minha avó, gentil senhora,
De braço dado, coração uno,
Subia a longa escadaria de pedra e, contente,
Ia visitar o cemitério…

Visitava-o, digo bem
Visitava-o como se visita um lugar sem ter quem ver
Que a minha avó, doce senhora,
Só lá entrava por meu avô
Por meu grave e não saudoso avô
Pois que não se pode visitar ou suspirar quem não se conhece.

Passava o portão, tudo na mesma
Que a morte não conhece nem tem tempo
E em o tendo não é seguramente o nosso
Todos dormimos para acordar um dia
Isto dizia a minha avó
Mas se a morte tinha o tempo de uma noite
E é de noite que os espíritos visitam as ruas
Não querem ver que andamos enganados
E o Sol não é mais que a Lua dos que morrem!...


No tempo em que eu era ainda um jovem menino
E queria acordar o homem grande que dormia
Sonhava de dia e acordava de noite
Meu pai ralhava, minha mãe suspirava
E minha avó perguntava por que andava ao contrário
- Não ando ao contrário, ando direito
Que há mais mortos que vivos no mundo
E se eles são mais e a maioria sai de noite
Devo seguir a maioria, que é quem deve ter razão…

A minha avó dobra-se: arranja as flores
Arranja as flores que morrem com o dia que passa
Sabem que vão morrer, essas flores
E tal como aqueles a quem se destinam
São enterradas também nas urnas dos cemitérios
Nas urnas frias e pálidas dos cemitérios
Naquela cama branca como um lençol…

(Sempre achei haver destinos melhores para flores mortas
Haver urnas melhores para flores mortas
Que não fossem as campas que não são as suas
Mas são mais felizes que os mortos que nelas dormem
Pois esses não tiveram o Sol que lhes desse o último beijo desta vida
Tão tapados estão pelo mármore dos cemitérios…)


No tempo em que eu era ainda um jovem menino
Cuja inocência secava como secam as flores em cemitérios
Cria haver cemitérios mais simpáticos que outros.
Hoje ainda visito cemitérios
E agora sei que os seus inquilinos são todos iguais:
Pobres figuras paradas, olham-nos por detrás das grades dos sepulcros
E todos usam as mesmas estátuas para lhes dar um rosto que já não têm.
Hoje já não sou um jovem menino
E aceitei ser um homem grande, que é dizer
Ser-se uma urna andante de um morto que respira
A urna andante do menino que eu já fui
E que me aparece em sonhos num busto de cera como o dos cemitérios…

Lembro-me daquelas tardes lentas e brilhantes
Em que, perdido no silêncio de minha avó,
Admirava os magistrais sepulcros que ornavam o cemitério
“Um dia quero viver numa casa assim” pensava eu
Hoje sei que não é necessário uma casa assim nem estar-se morto
E que também em casas de vivos vivem tantas vezes mortos!...

(A vida ensina-nos a morrer, alguém me dissera um dia
Talvez por isso tantos morram antes de morrer
Ensaiando com afinco antes do concerto final
Infelizmente nunca fui bom concertista…)


Tomam-me pela mão: é minha avó que se alevanta
Que se alevanta com a dignidade com que sempre foi a minha avó
A dignidade pálida e séria como uma estátua das que eu via em cemitérios
Eu ergo a cabeça, levanto-me por meu pé
E retorno pelo mesmo caminho de pedra polida
Deixo atrás de mim os bustos, as camas frias
Deixo atrás de mim as máscaras que sorriem por trás das grades
À saída um habitante, mais hospitaleiro,
Estendia-me dois bancos, um de cada lado do sepulcro,
Cobertos de musgo e poeira de vestidos velhos
Hoje aceito esse convite e faço-lhe companhia
Pois como não se há-de sentir sozinho quem tem flores maceradas e descoloridas como único elo com o mundo dos vivos?

Adeus, aceno eu com vibrante alegria!
Adeus, ciprestes anciãos deste jardim de pedra!
Adeus, mulher que choras o filho perdido!
Adeus, casal que dorme sob a terra, mas em camas separadas!
Adeus, anjo que reza quem não conhece!
Adeus, flores! E adeus, homem que varres as flores,
Talvez a mais bela das profissões da terra!
Adeus, Cristo na cruz, que estás vivo, dizem-no todos
Mas também todos te enterram várias vezes nas urnas dos cemitérios!
Adeus!
Adeus!
Até amanhã!...

(Tac-q-tá! Tac-q-tá! Tac-q-tá! Roc roc roc roc roc roc!
As rodas da carruagem iniciam o seu movimento circular
Do cemitério, perdido no horizonte, já nem o silêncio ouço
E na verdade já nem a mim mesmo me ouço…)


Sei que ainda durmo; e a dormir me encontro
Sei que também o menino que fui dorme o seu sono na cama fria do que sou
Sei que eu durmo e ele acorda, também, de noite
E passeia ainda revolto no meu coração
Já é órfão, pobre menino
E hoje sou eu quem o leva pela mão
Quem o leva a ver as urnas dos cemitérios
As urnas pálidas e frias dos cemitérios
E que, estendendo-me a máscara de gesso que lhe cobre o rosto,
Convida – experimenta-a!
E desde então que fielmente a uso…

(Deixai o meu rosto dormir, que as máscaras, essas, não cuidam saber ou querer coisa alguma!...)

Ah!... No tempo em que eu era jovem menino
E em que a minha avó voltava dos cemitérios!...


sexta-feira, 12 de maio de 2017

Era de Manhã


Era de manhã.

Era de manhã quando te vi junto às escadas
O verde da relva confundia-se com os teus olhos
E o azul do céu dava cor à minha alma...

... E era de manhã...

Era de manhã quando te vi junto às escadas
Eu olhava-te, tu olhavas-me
E o desejo de tocar a tua alma
Era mais forte que a própria Natureza...

... E era de manhã...

Estendes-me um braço; eu
(Na varanda da qual saíam as escadas)
Estendi o meu, tudo em vão
E, quando pensaste que chovia já,
Notaste serem as minhas lágrimas que caíam da varanda
E bebias as lágrimas que caíam da varanda
E me dizias para não chorar...

Nisto um vento célere limpa as silvas das escadas
Eu limpo as lágrimas, tu esperas em baixo
Coloco um pé, coloco o outro
E,
     Degrau
                    A
                         Degrau,
                                        Cheguei a ti...

(Só quem ama é capaz de entender o ser das coisas
Não saber reconhecer que ar respira
E ter um motivo para chorar...
Só quem ama se afoga noutro sopro
E deixa de ter a percepção das coisas
Onde começas, tu acabas
Não existe... simplesmente é-se...)

Era de manhã quando te vi junto às escadas
E, juntos, reparámos que nunca houve escadas
(Triste ilusão humana,
Que ainda precisa imaginar pontes para chegar onde sempre esteve...)

... E era de manhã...

Era de manhã quando te vi junto às escadas
Era de manhã quando te vi
Era de manhã
Era

(Destruídas as escadas da vida, a verdade resume-se a ser...)


quarta-feira, 10 de maio de 2017

Tanka






A vida é um rio
A brisa filha espalha
Sonhos na noite.

Duas pontes sobre um rio
Assim são dois amantes.

domingo, 7 de maio de 2017

De ti...


De ti não quero as tuas posses
Pois isso quer dizer que morreste;
De ti não quero palavras ternas
Pois isso quer dizer que precisas de te justificar;
De ti não quero que me digas que o que sentes por mim é do tamanho do Mundo
Pois isso quer dizer que é algo tão pequeno que pode ser medido;
De ti não quero juras nem promessas
Pois isso quer dizer que não estás seguro do que queres;
De ti não quero a tua caridade
Pois isso quer dizer que tens pena de mim;
De ti não quero grandes expectativas
Pois isso quer dizer que amas uma imagem;
De ti não quero as tuas orações
Pois isso quer dizer que estou tão mal que nem me podes ajudar;
De ti não quero que olhes para o lado para veres se te acompanho
Pois vou em frente contigo mas não confias em mim;
De ti não quero que julgues que sou fria por te dizer tudo isto
Pois isso quer dizer que não me conheces...

Assim, senta-te comigo num barco de madeira
E não me olhes, ou julgues, ou toques
Nem fales, que a palavra limita a linguagem
E viajemos assim no barco da vida
Esperando que o nosso rio chegue à foz
Navegando sempre na direcção do Sol
E olha simplesmente para a frente comigo
E quando se soltar a última tábua
E se tiver perdido o último remo
Sejamos capazes de repousar por fim
E consigamos ainda sorrir às memórias
E nessa altura, meu irmão, eu serei feliz
Por ter ouvido, um dia, o teu silêncio...

terça-feira, 25 de abril de 2017

O Filho Pródigo


Lento caminho pela estrada
Uma estrada deserta e árida, em linha recta
A minha vida toma a direcção da estrada
Sentido único, só comigo.

(Perdido no presente o passado é o que tenho
Ah, minto!
A agradável memória do meu soldadinho de chumbo traz-me uma sensação de alegria imensa.
Tinha um fato vermelho, o meu soldadinho
Com os botões dourados com uma linha dourada
E um nariz pequeno como o da minha mãe.)

Deixo uma pegada na terra molhada
Seguramente a única coisa que deixarei para o futuro
Não cultivei a minha vida
Quero água, mas o meu cantil está vazio
Tenho sede, mas o meu peito está vazio como o cantil...

(A minha mãe, oh, a minha adorada mãe!...
Há quanto tempo, minha mãe, que fugi de mim, de ti, de todos...
Quantas vezes cantei sozinho as tuas canções...
Ainda tenho sonhos com o avô, sabes...
Tenho medo que me leve sem piedade.
Hoje levarei um ramo de flores para ti.)

Vejo lírios à beira da estrada
A minha mãe adora lírios, colho-os para lhos dar
Brancos como os cabelos da minha avó.


(E a mina irmã? A minha pequena?
Vou ensinar-te, irmã, a ver as nuvens

Que não são brancas como os lírios, mas de todas as cores
Que são azuis, cincentas, vermelhas, laranja e cor-de-rosa,
Como as fitas que te amarram as tranças...)

Tropeço; cai-me a caixa de cigarros
O meu pai deu-mos,
Nunca os fumei,
Nunca queimei os meus pulmões,
Não obstante queimei a minha vida...

(O meu grave pai vai estar sentado no cadeirão do pátio
Com o seu cachimbo do lado direito da boca
O bigode negro fazendo curvas nas pontas
E eu vou fugir quando me falar do avô, seu pai
E eu vou pedir, chorando, que o avô não me venha buscar...)

Ah, a minha vida tão mais perto!
De volta, enfim, a cada memória que perdi.
O pinhal vai no fim, a luz está mais forte
E o meu coração enche-se-me com uma alegria de criança...

(Avó, tenho saudades tuas
Tantas cartas escrevi enquanto estive fora!
Nunca tas mandei, não tinha coragem
Apesar de saber que não guardas a zanga do meu pai ou a mágoa da minha mãe.
Sei que me entendes, mas não o entendi.
Tenho saudades, avó, muitas...
Ainda hoje penso nas noites à lareira e nas tuas histórias...)

Ah, a minha casa!
É a minha casa que vejo ao fundo!
Despojo-me dos meus bens, esqueço a caixa de cigarros
E estreito os lírios contra o peito
Não sou mais homem, sou criança
E corro de braços abertos como quando queria beijar a minha mãe.
O coração está descompassado, o rosto lívido
E eu abro as portas envidraçadas de rompante.

Minha mãe!
Meu pai!
Irmã, abraça o teu irmão!
Avó, o teu menino voltou!

Mãe, mãe, sou eu!
Não ouves a minha voz?
Trago-te lírios, as tuas flores preferidas
Mãe, vem buscar-me às escadas, que eu tenho medo do avô...

Os meus brinquedos! Estão todos cá!
A minha boneca de trapos ainda sorri de contente!
Os comboios estão no mesmo sítio em que os deixei!
E, oh, que alegria!
O meu soldadinho de chumbo!
Mãe, mãe, não me ouves? Onde estás?

Pai, o teu filho voltou!
Trouxe a tua caixa de cigarros
Fumá-los-emos juntos no pátio
E eu contar-te-ei as minhas aventuras...


Então, mãe?
Tu nunca foste assim...

Não ouves, não respondes...
Pai, onde estás?
Onde está a minha irmã?
Onde estais todos?

Avó, vem pegar no teu menino!
Avó, voltei para ti!
Dar-te-ei a ler as minhas cartas
Vem pegar-me ao colo, contar-me histórias!
Haverá novamente alegria nesta casa!
Acendamos a lareira,
Abramos as janelas!

Mãe, pai, onde estais?
Avó, tu nunca me fizeste isto quando eu te chamava!

(No pátio o cadeirão está coberto de folhas secas,
O jornal velho jaz ao lado
E o cachimbo partido arrasta-se com o vento
As janelas empenaram com o tempo
E a lareira está tão húmida que já não acende...)

... Minha mãe...?

... Meu pai...?

... Minha irmã...?

... Querida avó...?

... Alguém...?

Não esperaram por mim!
Perdi-os para sempre!
Não tenho nada, não sou ninguém
E não recuperei a minha vida...!

Perdoem-me!
Sou um fracasso!
Avó, perdoa-me...
Falhei para contigo e para todos!

(Longe toca o sino das horas
Observo longamente o cachimbo de meu pai
E os lírios para a minha mãe perderam-se com o tempo...)

Já nem me lembro do que fui
Sou a sombra do que fui outrora
Não há futuro
Resta-me o passo lento dos dias
Mais nada...

... Avô, onde estás?...
... Avô, já não tenho mais medo de ti...

Tenho sono, muito sono,,,
O vento já não me incomoda
Afasto os lírios murchos
Esqueço o cachimbo partido
E pouso o soldadinho de chumbo
E, sob a égide atenta do meu avô
Encosto-me a uma estátua em pedra
Fecho os olhos como uma criança
E sonho com as canções da minha mãe...